Artilheiro em estado de graça

Este conto será publicado em capítulos.

Capítulo 1

Ninguém sabia mais onde encontrar Popó. Diziam que havia mudado de cidade, ou até de país, desde aquele dia na final do campeonato regional. Popó simplesmente havia sumido.

Apolônio Policarpo Madureira, conhecido nas cercanias de Itapiracicabinha da Serra como Popó, era o borracheiro do posto de gasolina que ficava na entrada da cidade. Aliás, Itapiracicabinha da Serra, que não contava mais do que dez mil habitantes, distribuídos entre a lavoura e os serviços de comércio do município, tinha dois postos de gasolina, um na entrada e outro próximo ao campo de futebol, o Monumental das Jabuticabeiras, praticamente no lado oposto da entrada. E Popó se engraçava por uma moça muito simpática, que trabalhava como secretária no posto de gasolina concorrente, coisa que o dono, o pai dela, via com olhos de censura.

O time de futebol de Itapiracicabinha da Serra, o Esporte Clube Independente, era um dos mais afamados da região do vale do Rio Itapiracicabinha. Era praticamente imbatível. Curioso é que jogavam nele gerações e gerações da mesma família, os Costa, e o time sempre mantinha o mesmo padrão de jogo. Nunca perdera uma decisão contra o maior rival, da vizinha cidade de Araçás, fato que já havia sido levado até a câmara de vereadores alegando uma possível fusão das entidades. Obviamente, sempre rejeitada.

Nos dias de grandes jogos a população da cidade de Itapiracicabinha da Serra se reunia às portas do estádio para tirar uma prosa, beber cerveja, e observar o movimento. E falar mal do presidente do clube, requerendo que ele sempre montasse um time mais forte e competitivo, embora nos campeonatos da região o E. C. Independente fizesse ótimas partidas e era favorito na maioria delas. Ah, e reivindicavam, de forma constante, que ele pensasse seriamente em construir outra praça de esporte.

O Monumental das Jabuticabeiras fora construído sobre um antigo cemitério, situação que recentemente havia levantado suspeitas sobre misteriosos acontecimentos que tiravam o sono dos torcedores independentinos. Os atacantes, João Manoel Costa, o Maneca, e Otavio Torquato Costa, o Toco, porque tinha um dedo a menos na mão esquerda, simplesmente haviam deixado de fazer gols em duas temporadas seguidas. Eram ótimos jogadores, serviam muito bem aos companheiros para que fizessem gols, mas eles, por si só, não faziam. Chegavam à boca da meta e perdiam gols antológicos, fatos que levaram os torcedores a acreditar numa maldição dos espíritos, cujos corpos haviam sido ali enterrados.

– Sabe como é, torcedor aceita qualquer desculpa sobrenatural para disfarçar um erro ou algo não explicado de seu time. – Alegava o presidente do clube, que por acaso era o prefeito da cidade, Ariosvaldo Quintanilha, como razão para não efetuar a mudança da praça de esportes.

De qualquer forma, a situação se mostrava inquietante, uma vez que o time ia para a terceira temporada sem gols de seus principais atacantes. Ganhavam as partidas, às vezes até de goleada, mas o par de artilheiros se mantinha invicto. Tirá-los do time? Nem pensar. Eram os filhos mais queridos do Sizenando Camargo Costa, o maior comerciante da cidade, amigo do prefeito, obviamente, conselheiro do Independente e um dos homens mais ricos da região. E, por sinal, dono do posto de gasolina onde Popó trabalhava. Particularmente, ele, por ser muito vaidoso, não gostava de seu primeiro nome, por achá-lo diferente demais.

Popó era um sujeito calmo e pacato. Tinha por volta de dezoito anos, distribuídos em quase dois metros de altura, braços e pernas enormes, uma mão gigantesca, e forte como uma mula, como diziam seus colegas e amigos. Mas era doce e gentil com todos. Quem o visse pela primeira vez se assustava diante daquela figura absurdamente grande, mas logo depois se perdia o medo graças à sua fala mansa e gestos tranquilos. Fazia-se amigo de muita gente.

Num dia de começo de primavera, estavam Popó e sua amiga, quase namorada, Margarete, conversando às margens do Rio Itapiracicabinha, no outro lado da cidade e próximo ao posto onde ela trabalhava, sentados em um banquinho de madeira e descansando do almoço, quando surgiram os seus dois amigos, Yslei e Jocemar, que também trabalhavam naquele posto concorrente, para ir brincar com uma bolinha de futebol nova que um deles havia comprado. Popó refugou:

– Obrigado, meus camaradas, mas eu não gosto de futebol. – disse-lhes amavelmente, mas já desejando que fossem embora para ele continuar a sua conversa com a bela Margarete.

– Ah, vamos lá, homem! – insistiu o mais velho, Yslei.

– É só pra gente experimentar essa coisinha nova aqui. – completou o outro, apertando a bola com força. – É só um toquinho pra lá e pra cá, não vamos nos cansar muito. – argumentou, imaginando poder dar alguns dribles no amigo truculento.

Popó olhou para Margarete, que lhe abriu um sorriso:

– Que é que tem, bobinho? Eu também vou. – disse-lhe, com uma expressão convincente.

E foram os quatro para os fundos do posto, que era para o patrão não os ver brincando e se divertindo na hora de folga. “Hora de folga é hora de folga”, dizia ele, “Não quero funcionário cansado aqui trabalhando no resto do dia e não rendendo”.

Yslei e Jocemar tinham alguma habilidade no trato com a bola. Começaram tocando um para o outro a pelota, sem deixá-la cair, e rindo muito do que faziam. Eram cabeçadas, embaixadinhas, toques de letra, matadas na coxa, no peito, malabarismos os mais diversos, tudo sem que a gorduchinha viesse ao chão. Enquanto isso, Popó e Margarete apenas apreciavam a habilidade e a técnica com a bola proporcionadas pelos dois. Já estavam quase enfarados daquilo tudo, até que um deles, Yslei, lançou a bola para perto de Popó, que não a deixando cair, matou-a no peito do pé e lançou para Jocemar, com extrema delicadeza e plasticidade.

A bola, evidentemente, caiu ao chão, pois os dois ficaram estáticos diante daquele gesto rápido e magnífico do enorme rapaz. O queixo dos dois havia literalmente caído face àquilo.

– Como é que você fez isso, rapaz? – perguntou-lhe Yslei, com os olhos esbugalhados.

– O que foi que eu fiz? Não era para fazer isso? – quis saber um atônito Popó diante do assombro dos rapazes.

– Não era pra fazer? Claro que era. – disse-lhe Yslei, que tinha agora a bola embaixo do braço. – Só não sabia que você era tão bom nisso. Está escondendo o jogo da gente, dizendo que não gosta de futebol, seu malandro?

– Mas eu não gosto. Aliás, nunca joguei. – Popó mantinha o olhar um tanto estupefato pela reação de seus amigos. – Só fiz isso por reflexo.

– Ah, tá, então vai fazer outra vez. Quero ver. – provocou o rapaz com a bola sob os braços. Ele lançou a bola bem alta, na direção de Popó, esperando uma nova reação.

E foi aí que o rapaz borracheiro mostrou o que sabia, sem nem saber que sabia. Quando a bola voltou a cair em sua direção ele a matou no peito, deixou cair no pé direito, levantou em uma série rápida de embaixadinhas, lançou para outro pé e alternou embaixadas de um pé pra outro, como se fosse um jogador veterano e rodado no mundo do futebol. A cena de pura habilidade era magistral e magnífica. E, para finalizar, deu um potente chute na bola, fazendo-a bater numa pilha de pneus disposta mais ao longe e indo cair no meio de alguns outros, tipicamente igual a uma jogada de cesta de basquetebol.

Como que um homem corpulento e aparentemente desengonçado tinha tanta habilidade com uma bola e assim, de supetão, ao natural, pensaram Yslei, Jocemar e Margarete, que se deliciaram diante daquela demonstração de muita técnica, batendo palmas, esfuziantes. Porém, não perceberam que ao longe, ali nas imediações, postado no alto das arquibancadas do Monumental das Jabuticabeiras, que era vizinho do posto de gasolina, o treinador do Independente observava assombrado àquilo tudo.

Nisso, o dono do posto se aproximou e gritou para eles:

– Como é, vão trabalhar ou ficar amorcegando pelo resto do dia? E tu aí, Margarete, volta já pro teu escritório.

Rapidamente se movimentaram e se encaminharam para os devidos lugares. Popó cumprimentou os rapazes e deu um terno beijo na face espantada de Margarete, saindo dali enquanto o dono do posto e pai de Margarete o observava, furioso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s