Artilheiro em estado de graça

Capítulo 6

A avó, vendo que Popó não desembuchava, puxou o assunto:

– Então, meu filho, como foi o jogo?

Popó, à mesa, jantando naquele domingo à noite, viu que a velha mulher o rodeava por diversas vezes, sem nada dizer. E ele não sabia como começar o assunto. Mas aquela deixa foi o suficiente para ele contar.

– É, foi diferente. O pessoal do time deles é bem legal. O barulho, a agitação, as pessoas se aproximando da gente. Não sabia que era assim. Mas, como é que a senhora sabe?

– Ora, todo mundo tá comentando, meu filho. A dona Marilda dos brocados foi a primeira a me contar. Depois as outras vieram até aqui dizendo que você jogou bem e que tinha ganhado o jogo pra eles. E…

Nisso alguém bate à porta e a avó vai atender. Eram os amigos de Popó, Yslei e Jocemar, com um sorriso de orelha a orelha. Entraram porta adentro e abraçaram o borracheiro, que agora era o artilheiro do Independente.

– Surge um novo ídolo em Itapiracicabinha da Serra. – Sentenciou, efusivo, Yslei.

– E agora é viver com a fama. – Completou Jocemar.

A avó deixou sair um risinho no canto da boca diante da atitude dos dois, mas Popó não parecia, assim, muito à vontade com aquilo tudo. Os amigos perceberam que ele não estava feliz. Havia algo com ele sobre a situação, que o incomodava. E a velha senhora tinha uma noção sobre o que era.

– O que foi, cara, parece que não está contente com isso? – perguntou Yslei, percebendo a expressão amuada de Popó.

– Não é nada, não. É só coisa minha.

– Conta pra eles, meu filho. – rogou-lhe a avó. – Quem sabe assim você tira essa angustia da cabeça.

– Meu pai foi quem me criou. – Começou ele. – Minha mãe morreu quando eu nasci e foi ele quem ficou comigo. Ele era um jogador famoso, mas gostava que se danava de uma branquinha. E aí acabou morrendo disso. Eu tinha uns cinco anos de idade. Fui colocado num orfanato até que a minha avó aí me tirou de lá. – Ele fez uma pausa na explanação e os olhou de frente. – Sabe onde meu pai foi enterrado? No mesmo lugar onde hoje tá o estádio.

– Taquiopariu! – Exclamou Yslei. – Ó, desculpa, vó! Que merda, cara!

A velha senhora olhou de lado.

– Então você não vai jogar mais? – quis saber o outro.

– Não sei, depende de uma porção de coisas. – resignou-se Popó.

– Mas o corpo do teu pai não está mais ali, homem. – Conformou Jocemar. – Quando eles construíram o estádio a prefeitura tirou todos os caixões e levaram lá para o Jardim dos Céus, no Morro Verde.

-É, eu sei. Não é isso. É que fica a lembrança, né.

– Ah, Popó, deixa de fazer caso! – disse, sorrindo, o amigo Jocemar. – Não liga mais pra isso, rapaz. Faça uma homenagem ao seu pai e assuma que você agora é a atração do Independente.

Popó riu, desconcertado. Pensava ser muito cedo para assimilar a ideia, porém, também sabia que muita coisa poderia mudar na sua vida. Aquilo era só o começo. Depois, sentaram-se na varanda da casa e riram de várias histórias até altas horas.

Na manhã seguinte, ao chegar à borracharia, o dono do posto, seu Camargo, estava encostado na porta esperando por ele. Tinha uma cara de poucos amigos e Popó imaginava o que havia feito de errado.

– Tá um pouco atrasadinho, né, seu Popó? – achou estranha a cobrança, uma vez que o Camargo nunca lhe cobrou pontualidade, apenas assiduidade.

– É que ontem foi muito cansativo, seu Camargo. O jogo, dormi tarde, o senhor me desculpa…

– Bom, eu não vim lhe oferecer perdão. Trate de não deixar mais isso acontecer. Mas a conversa que quero ter com você é sobre a sua participação no Independente. Você fez um bom jogo, foi destaque do time, parece que o Fonseca quer lhe usar mais vezes, só que eu não quero que isso prejudique o seu trabalho. Você é empregado do posto e não do time. Ficou bem claro, seu Popó?

– Sim, senhor. Prometo não causar mais transtornos assim, senhor. – Popó o observou atentamente e tentou entender qual seria a razão daquela bronca e só mais tarde é que juntou aquilo à briga dele com o Fonseca.

Na terça-feira à tarde o time se reuniu no Monumental das Jabuticabeiras para um treino. Teriam um jogo difícil no Sábado, fora da cidade, e o Fonseca queria uma preparação mais forte. Todos os jogadores se apresentaram, inclusive Toco, que vinha surpreendentemente animado. Até o rapaz que havia se contundido na disputa de bola com Popó também estava lá, dando uma contribuição pessoal ao grupo. Estavam motivados. Todos haviam ido, menos um, Popó.

Fonseca ainda deu uma esperadinha para ver se ele chegava, pediu para os rapazes uma nova sessão de aquecimento antes do coletivo, mas nada do borracheiro chegar. Começado o treino, por diversas vezes olhava para o portão na esperança de Popó surgir, mas nada. Nem sinal daquele que já era seu principal jogador. No final dos trabalhos ele se mostrou extremamente irritado pela ausência do rapaz.

Após ter-se despedido dos demais jogadores, resolveu ir imediatamente ao posto de gasolina onde Popó trabalhava. Foi até os fundos, onde ficava a borracharia, e enquadrou o rapaz:

– Popó, que é que houve? Você não sabia que havia treino hoje? Fiquei lá esperando você toda a tarde. Que irresponsabilidade! – Popó o encarou, sem saber o que dizer, dando de ombros.

 Nesse instante, Camargo veio direto de dedo sobre o Fonseca, intimidando-o:

– Escuta aqui, que história é essa de querer tirar meu empregado em horário de trabalho. – dizia um Camargo enfurecido.

– Ei, você não está entendendo. Ele é jogador do Independente. Qual é o seu problema? – argumentava Fonseca, mais raivoso ainda.

– Quem não está entendendo é você. Se ele sair, quem vai cuidar da borracharia pra mim?

Naquele momento algumas pessoas já se postavam nas proximidades do posto, uma vez que a discussão entre os dois dava-se num volume de voz bem mais alto que o habitual.

– Mas, espera aí, todo mundo aqui na cidade sabe que os jogadores do Independente têm suas atividades liberadas pelos patrões para os treinos e jogos. Sempre foi assim. – afirmou Fonseca, agora perplexo diante das argumentações de Camargo.

– É, mas resolvi não dispensar meu empregado. – falou Camargo, taxativo.

– Olha, então eu vou ter que falar com o Ari. Isso agora saiu de minha alçada. – e virou-lhe as costas.

Assim que Fonseca saiu, furioso, Camargo virou-se para o outro lado, sem dar explicações a Popó.

Popó, sem entender a necessidade da briga foi-se embora para casa, pensativo. De um simples borracheiro, trabalhando nos fundos de um posto de gasolina de uma cidade pequena, ele agora era alguém importante. E precisava mudar alguma coisa em relação a tudo isso. Encontrou Margarete mais à frente, que lhe deu um terno beijo nos lábios e na face.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s