Liberdade de livre-agressão

No fim de semana que passou notícias nos deram conta do entrevero envolvendo jogadores do Vitória e sua torcida. A palavra de ordem mais ouvida era “Ou sobe por amor ou sobe por terror”. Houve empurrões a jogadores, intimidação à comissão técnica, ofensas morais, corre-corre e leviandades diversas. Tudo porque torcedores de um time de futebol acharam que podiam ofender, bater ou até ameaçar matar em nome do AMOR PELO SEU CLUBE. E tem gente bem nascida e bem criada que apóia tudo isso.

– Ô, cara, torcida tem que fazer pressão, pois do contrário o time não joga. Agora queres ver como vão jogar?

Então funciona assim? É na base da pressão, da intimidação, da ameaça que se consegue algo no âmbito do futebol? E aí eu pergunto: até onde vai isso? Qual o limite de uma suposta simples exigência até uma agressão mais, digamos, incisiva? Eu não sei. Ninguém sabe. E mente quem disser que isso é apenas um protesto pacífico. Sabe-se que, geralmente, de pacífico não tem nada e isso pelas circunstâncias não acaba bem. Se algum infeliz me disser que torcida tem os seus direitos, inclusive de deitar palavras de ordem fascista, é porque estamos à beira da barbárie. Aliás, tenho ouvido e lido coisas semelhantes na torcida considerada a mais inteligente destes lados do mundo, aquela que frequenta os Carianos.

– Ah, isso quer dizer que torcedor deve aceitar calado quando as coisas não vão bem?

Bom, não é isso que eu digo, que alguém deixe de ser estúpido e passe a ler meus textos corretamente. Eu sou frontalmente contra esse comportamento mais violento, mesmo que não haja agressão física, em algo que foi feito para se divertir, para ser um espetáculo, uma exposição da cultura e não a manutenção de uma estrutura de Estado, que é o que apregoam as torcidas chamadas organizadas. Há gente confundindo as coisas, que isso fique bem claro. Uma coisa é a sua vida em sociedade e as suas relações com sistemas de governo ou organizações políticas vigentes. Outra é transformar um evento esportivo ou estádio de futebol em operação de guerra. Se a torcida fizer os seus protestos aos extremos observados fará o que daí por diante? Vai tomar o poder do clube? Sair cantando o hino da Internacional Comunista pelas ruas da cidade?

Há a velha fórmula pragmática de “respeito às instituições”. Diz-se, levando este aforismo adiante, que dirigentes, técnicos e jogadores devem respeitar as cores, a bandeira, a camisa de seu clube, o chamado manto sagrado. E o que é esse respeito?

É o “se não jogar como eu quero, vou aí e te dou uma porrada”? A propósito disso, já houve uma intimidação à minha pessoa em razão de minha opinião, quando alguém queria me “apresentar à Mancha Azul” pelos textos que eu publico. E são os mesmos que exigem respeito às instituições.

Lembro que o uso da violência, da intimidação e até de assassinatos foram práticas muito executadas por grupos denominados Camicie nere. Se alguém não souber o que é isso, consulte o pai dos burros e deleite-se com o significado.

É de estarrecer que em pleno século 21, chamado Era da Tecnologia, do Conhecimento, da Informação, quando a ciência é capaz de solucionar muitas de nossas necessidades, ainda se encontre adoradores de legiões de bárbaros, motivados pelo “respeito às instituições”. Ou será que estamos na Idade Média e não sabemos?

Aliás, o que há é um bando de desequilibrados e frustrados que pensam ser o futebol a coisa mais importante do mundo. Como se a vida se encerrasse ali, num gramado onde onze bonequinhos envergassem as suas cores prediletas e por eles o sujeito na arquibancada torceria até morrer.

Cuidado!

Se você já ultrapassou este limite, o de apenas ir a um estádio e torcer por seu time de futebol, se as suas inclinações são a de soltar porrada em quem lhe contesta, ou nos adversários, ou em times que não rendem, se a sua única forma para encontrar soluções é apontar os dedos para alguém ou ofender, xingar e ameaçar o alvo de suas angustias, ao invés de apostar num bom debate, está na hora de procurar um profissional. Para o bem da sociedade.

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