Manual do cliente – ou efeito Denorex

Quando vi aquela nota da direção do Camboriu, a que pede público zero no estádio, fiquei surpreso. Ao ler assim, de supetão, pensei que era mais uma conclamação negativa de torcedores pertencentes a que se diz A MAIOR DO ESTADO. Aliás, se o leitor mais esperto substituir Camburra por Avaí no texto, a conclamação fica exatamente igual ao que se faz por aqui, com as convocações melodramáticas por público zero, com todas aquelas desculpas esfarrapadas que já se conhece. A minha surpresa, contudo, foi isso ter vindo da direção do clube, que sabe exatamente o custo que há no futebol sem garantia nenhuma de retorno. Federação fraca, juízes ruins, esquemas, complôs, TV oportunista, estádios deploráveis são apenas os ingredientes mais comuns, tão velhos quanto caranguejo andar para trás. Mas o torcedor deles sabia de tudo isso e ainda assim alimentava um sonho.

Os diretores, contudo, entendendo que torcedor de certa forma é seu cliente fiel, um consumidor de supermercado que foi ali assistir a um jogo para se divertir, resolveu fechar as portas do comércio porque estimou que o produto se deteriorava. A sua carne era de primeira linha, mas o dono do freezer tirou a tomada, presumiram. Decidiu, então, que agora o torcedor não é mais cliente? Quem sabe. Você monta um negócio, espera receber uns trocados de volta, mas depois diz que não quer mais vender porque há riscos no comércio. Essa é a lógica deles.

Há muito tempo que a gente sabe que o campeonato catarinense é falido. E não é pela falta de empenho dos clubes, isso não. Muita gente que não tira o bumbum do sofá e só sabe reclamar, aqueles criados a leite com pêra, não compreende o que é fazer futebol sem dinheiro suficiente. Às vezes, nenhum. O hilário da situação, se não fosse trágico, são as comparações esdrúxulas feitas por jornalistas e torcedores abobados com clubes europeus.

Há os que pedem um time de qualidade, treinadores com pós-graduação, uniformes especiais, administração da NASA em seus clubes, mas não movem uma palha para ajudar o seu dito amado clube até na morte. Há uns aluguetes da rede famosa que pensam ser puxa-saquismo o fato de um torcedor ir a um estádio e apoiar o seu clube, na condição de apenas torcer. Imaginam, na sua esquizofrenia de botequim, que torcedor deve ser um revolucionário, um carregador de faixas, um batedor de latas da Plaza de Mayo ou Caracas a exigir que as contas fechem ou as comissões técnicas façam times de acordo com suas necessidades (não as do clube). E, em sua maioria, bradam por melhorias debaixo de edredons ou sentadinhos confortavelmente no sofá com o controle remoto na mão. Se acham clientes e querem certificado de qualidade para seu produto e não vão comprá-lo se deixar de atender a todos os seus requisitos. Este é o torcedor desnecessário num clube, com o qual as diretorias nem se importam.

Porém, lá em Camboriu, o torcedor ainda ia torcer. Era torcedor e não cliente. Não se sentia assim. O trato da diretoria com eles foi de montar um time e pedir que os apoiassem, que comprassem um sonho, nada mais que isso. Quando viram que a realidade era mais assombrosa do que eles mesmo, os diretores, imaginavam, resolveram poupar o seu fiel torcedor disso. Quem sabe, quando as agruras de nosso futebol forem resolvidas, este torcedor volte e continue a dizer que é Camboriu até morrer sem falsas expectativas. Ou pelo menos é o que parece.

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Um pensamento sobre “Manual do cliente – ou efeito Denorex

  1. Ops, acabei retwitando sem querer.

    Complicado, situação difícil aqui, cambura, jaraguá, continente, palhoça,…
    um camarada me ligou pra dizer que a CEF não está efetuando os pagamentos, além de algumas coisas não muito boas.

    vamos esperar o futuro com atenção e com mais participação do torcedor.

    sds

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