Sem eira e nem estribeiras, por Alexandre Aguiar

Um certo historiador romano, Tácito, disse certa vez que a História deveria ser escrita sine ira et Studio, ou seja, sem raiva e sem parcialidade. Algo difícil, evidentemente, pois a História é escrita pelos humanos, que mantém a emoção sempre acima da razão, ainda que tentem ao contrário. Mas Tácito estava certo, uma vez que a emoção turva a maneira como se percebe e analisa as coisas.

Eu tenho o feio hábito de falar de tudo, dizem. A chamada liberdade de expressão pela qual lutei me ensinou a ser assim. Meus pudores quanto a dizer o que penso têm limites curtos. Sou até refratário ao tal do politicamente correto. Mas, ainda que eu esteja muito longe de ser um franciscano, as regras de civilidade, de comportamento social que eu aprendi nos livros, com a família e na vida dizem que há limites. Não se pode, ou se deve, sair por aí a achacar quem se quer por julgamentos próprios e antecipados, por se achar que é assim mesmo e aí se fazer o que quiser. Viver em sociedade requer normas de convívio, princípios básicos de relacionamento e de humanidade. Isso é o que nos distingue da barbárie completa, aquilo que nos mantinha nas árvores antes de descermos para o chão e construirmos as cidades e a civilização.

A raiva e a frustração de muita gente na internet é enorme. É um poço sem fundo de iniquidades. Preconceitos, ofensas, xingamentos gratuitos, ameaças é o que mais se vê pelos fóruns, blogs e redes sociais. O “desumano” em sua mais complexa existência.

E em ambientes de futebol, então, isso é uma festa. Junte-se analfabetos funcionais que mal compreendem um texto, frustrados existenciais, falidos financeiros e de moral os mais diversos, torcedores de arquibancada e malas sem alça e você tem a mais extrema demonstração do quanto a dignidade humana torna-se degradante e o quanto se aproxima da barbárie. Xingar alguém pelos teclados ou dar-lhe um tiro, em certas ocasiões, tem quase o mesmo efeito. Basta ser do time contrário, ou do mesmo time, desde que não comungue com as mesmas aspirações e/ou opiniões, que a agressão estará exposta.

Tem quem contemporize, dizendo que é “a linguagem do futebol”. Há o famoso relativismo “é assim mesmo, tens a péssima mania de comprar briga dos outros”. Ao final, partem da mesma fonte, ou do princípio básico da agressividade gratuita e do preconceito barato.

Aliás, se há uma atividade humana onde o preconceito nada de braçadas é a do futebol. Jogador “mais escurinho” é negão, macaco, mulher é vagabunda, gostosa, menino é viadinho, punheteiro, idosos são dorminhocos, árbitros são filhos da puta, jogador é cachaceiro e tudo isso é encarado como perfeitamente natural. Eilaiá! A propósito, futebol gostoso é aquele que tem discussão, bate-papo, debate, defesas de opiniões. Quando parte para a agressividade e o preconceito, não. Fica feio. Perde a graça.

Na arquibancada até se relativiza a extrema sensação de desabafo que ocorre. Ali, a adrenalina está no limite máximo e uma aliviada é cômoda, até para se evitar um ataque do coração, quem sabe. Imagina-se que ali, tudo é permitido. Embora eu seja refratário à vaia e ao malquerer na laje fria da arquibancada, e até a algumas grosserias dessa ordem, naquele lugar à beira do gramado se entende o que chamarei de inconformismo. Às vezes chega a ser divertido ver o marmanjo bem nascido ou a senhora de estirpe, que se conhece lá fora exalando amabilidades e frufrus, esbravejando e suando raiva feito lutadores de arena.

Todavia, a minha bronca sempre foi o de se levar esta “linguagem do futebol” para casa. Para o ambiente sossegado de um lar, onde o sujeito devidamente alimentado de leitinho com pêra e hidratado com água mineral importada invade as madrugadas para punir os alvos de sua frustração com agressividade, raiva, ofensas e preconceitos. Reputações são jogadas na lama como se fosse um belo ato de se expressar. É ali que se forma a linguagem arrivista do futebol propriamente dita e não nas arquibancadas. É ali que se abate a tiros a civilidade.

Em algum lugar, graças à internet, se esqueceu o cavalheirismo, a gentileza e a elegância. E a educação jaz no túmulo dos inconsequentes.

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