O torcedor comum e o avaiano

Ao assistir o depoimento do Marquinhos Santos, quando da homenagem pelos seus 200 jogos com a camisa do Leão, eu cheguei à seguinte conclusão: torcedor de futebol é um tipo de humano carregado de aflição. A palavra paciência não existe em seu dicionário. Ele, o torcedor, quer saber das coisas de seu time, quer antecipar jogadas durante um jogo, ele se mortifica dia após dia até uma partida decisiva. Comenta sobre futebol quanda nem há jogos.

Talvez seja por isso que torcedor seja um eterno frustrado, ainda que seu time seja vencedor, tenha histórias de conquistas e esteja sendo comentado por mais tempo na mídia.

Diz a lenda que os deuses do universo, quando criaram o ser humano, para ser perfeito disseram que ele só não podia ser torcedor de futebol, porque o coração, o órgão que sofre com a emoção, por ser o mais frágil iria se desmanchar mais rapidamente. E essa natureza da imperfeição foi levada a sério.

Há, contudo, no meio das torcidas, gente que se impõe como especialistas racionais. Usando o princípio da inteligibilidade, são os que não se comovem com um gol, um passe açucarado, uma conquista heróica. Preferem observar com a ponta da razão do que estar imersos no caldeirão de emoções. Não sabem que a razão passa distante deste ser que se atribui casto. Tanto é assim que a razão nunca foi garantia de ser torcedor, em qualquer situação encontrada, muito pelo contrário.

O problema, simplesinho, que eles não entendem, é que a única coisa que garante a existência deste esporte é a torcida e a sua ansiedade, e sua presença nas arquibancadas. Sem elas, ele, o futebol, é desnecessário. A perfeição da anatomia do (ex) torcedor seria completa. O torcedor, sem teorias tortas, é um poço de paixão.

Todavia, tudo isso que falei é para torcedor de outros times. Porque, dá licença, mas há uma enorme diferença entre ser torcedor comum e ser avaiano. Ele é muito mais do que um simples torcedor. Bater no peito e dizer que é avaiano é encarar as adversidades, por mais ruins e absurdas que forem.

Entretanto, há uma montoeira de avaianos, levados pelo incêndio da razão, que já não quer mais passar por isso, estão com medo de sentir medo, estão com vergonha da vergonha, estão perdendo a avaianidade, uma coisa etérea, sem distinção, sem significados na palavra escrita, mas que qualquer avaiano com alguma bagagem nas fuças sabe o que é. Estão se valendo da razão para ser torcedor, uma heresia desmedida.

Conforme a maioria destes torcedores, que é a que fica em casa, o time já está desclassificado no Chevroletão 2013, é um monte de perebas ajuntado por incompetentes e tem que ser todo refeito para a série B, do goleiro ao gandula. Por isso, nem adianta mais ir à Ressacada, segundo eles. E acabam se consolando com isso, sem mover uma palha para mudar o quadro. Se indignam, apenas.

De nada serve, ressalto à exaustão, construir enredos dramáticos sobre possibilidades, presidentes, jogadores e jornalistas se não se é capaz de enfrentar o problema in loco, sendo avaiano.

Se houvesse a mínima possibilidade, a menor e mais ínfima garantia de vitória ao se ir a um jogo de futebol, não valeria a pena ser torcedor. E muito menos ser avaiano. Vamos a um jogo em função de não termos certeza de nada do que vai acontecer, pela angustia e ansiedade próprias, pela história, pelo contexto, e pela causa primária em ser avaiano. Essa é a essência do negócio. Diretorias vão e vem, jogadores chegam hoje e saem amanhã, mas o torcedor fica. Ele é o sangue que corre nas veias de um clube de futebol. Ele é o coração frágil que pulsa nas arquibancadas.

Que jamais alguém se esqueça disso.

Marquinhos já pediu, Ricardinho implorou, mas a paixão avaiana é a que deve falar mais alta. Ou você quer ser um torcedor comum?

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4 pensamentos sobre “O torcedor comum e o avaiano

  1. É importante a presença do torcedor, mas mais importante são as ações da diretoria e da gerência do futebol que precisa mudar.
    Zunino já deu pro gasto e a torcida já não confia mais nos times que ele monta.
    Quando o time é bom não precisa ficar suplicando e mendigando a presença do torcedor, concordas?

  2. Não, Xande, respeito tua opinião, mas não concordo. Aqui há uma legião de preguiçosos, então é preciso dar umas cutucadinhas. E aí vão quando? Quadno time for campeão?
    E torcedor não ir ao estádio por causa de diretoria? Por favor! Nem a favor e nem contra diretoria, é um argumento ginasiano.

  3. Môquirido, lindo texto. A ressalva que eu faço é que esta propagada avaianidade, não é exclusividade do teu time do coração. Esta paixão, devoção quase religiosa -senão maior, uma vez que é bastante comum fiéis mudarem de congregações, mas poucos são os que viram a casaca- é comum a todo torcedor de verdade, independente da cor da camisa. O sofrimento, as dificuldades, as superações, as vitórias históricas, as derrotas vergonhosas, juízes que nos prejudicaram, juízes que nos favoreceram, todos que sentem no peito o futebol, já viveram. Mas hoje estamos num momento tão diferente da relação clube-torcedor-futebol, que é difícil definir tudo num texto. Cabe num livro as reflexões, talvez em mais de um, com direito a reedições revisadas e ampliadas anualmente. Não é a diretoria, não é o time, não é o torcedor, é tudo. Tudo mudou e tudo influencia. Os patrocinadores, as televisões, a geração Y que consome e assimila diferente da geração X a qual faço parte, o modo de entregar e receber o produto futebol mudou. O jogo do Figueira que eu mais gostei do ano passado, por exemplo, foi a derrota em casa para o Atlético Mineiro, quando saímos perdendo, viramos para 3 x 1, e tomamos novamente a virada para 3×4. Jogaço, achei lindo, saí feliz do estádio por ter visto meu time jogar com coragem, com vontade de vencer, aceitando o risco da derrota pela possibilidade da vitória. Mas naquela noite acho que fui o único que saiu do estádio assim, pois a maioria apenas culpava diretoria, técnico, elenco, CBF, juiz, enfim, desculpas não faltaram. Bom, a reflexão é longa, os motivos que levam a este descrédito dos clubes são vários, quem sabe não faço também um texto sobre o assunto. Quem sabe não escrevamos a quatro mãos um livro sobre o tema? Abraço.

    • Opa, gostei da ideia do livro. Na verdade, já há algum tempo amadureço a idea de algo neste sentido. O que falta, talvez, seja começar. Assunto é o que não falta.
      Corroboro plenamente com a tua opinão sobre as coisas que nos tiram do estádio. Porém, penso que devemos ainda valorizar muito os nossos clubes. As gerações futuras, nosso filhos e nossos netos, se gostarem de futebol, têm que encher o estádio pra ver Avaí e Figueirense e não Vasco, Flamengo, Grêmio e Inter. Porque, muito da falta de frequêncua, eu credito a estas comparações. E aí, sim, perdemos, claro.
      Só uma ressalva: a respeito da avaianidade, isso é porque não és avaiano. hehehe
      Abraços, mô pombo.

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