O fator gandula

Há coisas que Freud não explica. São aquelas situações na vida em que se olha a paisagem, se observa até a árvores, mas não se entende o que significa, de onde saiu aquilo, qual a razão principal. Vira e mexe a gente esbarra em alguns tansos do seu lado e se pergunta: o que é que este toupeira quis com isso? Naturalmente, quando a toupeirice é muito grande, a explicação é óbvia. Sim, você já sabe as respostas. Contudo, algumas personalidades estão há anos-luz de uma tansice mórbida. São as pessoas que elucubram, que pensam, que elaboram sistemas e modos de agir. Eles pensam agora, para ter uma atitude e resultados lá na frente. O barbudo de Viena não explicaria o ocorrido. Ele apenas sentaria na calçada e bateria palmas para isso. “Muito bem, Flipper!”

É o caso, por exemplo, do que o técnico Vadão acusou no último jogo entre Avaí e Criciúma, na Ressacada, jogo, aliás, que encheu os olhos de satisfação de quem entende um pouquinho de futebol. Ele afirmou que os gandulas atrapalharam a atuação do time dele. E mais: que a direção avaiana havia promovido isso.

Pense o leitor atento ao futebol, e não a um mero saco de pipocas, o quê isso significa. Pense. Deu, tá bom, não precisa também esquentar a moringa! O que o Vadão, um técnico experiente e competente, quis com isso?

Se alguém prestar atenção no jogo, vendo um replay completo, o time do Criciúma, inteligentemente comandado, fez a famosa cera de maneira adequada. Não foi aquela ensebação habitual, de cai-cai metódico, de jogador saindo de maca numa substituição. Mas o Criciúma não tinha pressa no jogo. E empatou ao natural, com a sua qualidade assegurada, a cada ida do Avaí no ataque. O Criciúma, ao meu ver, teve domínio da partida em boa parte do jogo, mas foi surpreendido pela também boa atuação do conjunto do Avaí, pela garra do grupo e por atuações irreparáveis de alguns de seus jogadores, como Marquinhos, Eduardo Costa e Roberson. Isso pesa psicologicamente numa decisão.

– Jogamos muito, mas os caras foram melhores do que a gente. Assim não vai dar – pensavam os jogadores do Tigre a cada gol avaiano.

O técnico Vadão, muito experiente, tirou o foco disso tudo. Ele poderia, como faz a maioria dos técnicos, ir para a frente dos microfones e dizer que a atuação quase impecável do Avaí limitou a atuação de seu grupo, que o time do Avaí é muito bom e que teria que jogar bem mais para diminuir este ímpeto avaiano. Discurso básico e comum de vários treinadores derrotados numa decisão. Mas, não! Ele preferiu tirar o foco do jogo e lançá-lo em algo completamente fora de propósito e sem distinção. Surpreendeu a todos e, provavelmente, até a seus jogadores, que esperariam uma análise tática. Os gandulas foram os culpados!

O que fará o técnico do Criciúma agora, lá no CT deles? Dirá a seus comandados que “porra, a gente poderia ter ganhado, se não fossem aqueles gandulas moderfoquer!”.

Ganhará psicologicamente o grupo, terá a seu favor qualquer atitude extra-campo (o Avaí fez, porque também não posso fazer?) e Freud, nas arquibancadas, baterá palmas para este cidadão muito inteligente.

Ocorre que, se o Avaí meter um bola, só umazinha no início da partida nas redes deles, acabou toda a armação e ainda poderemos sair de lá não só classificados, mas com bom saldo na conta. Eu não errei nenhum prognóstico neste campeonato até agora.

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O Maracanã é aqui

Quando neste fim de semana foi reaberto o estádio de futebol mais famoso do planeta, o Maracanã, fluidos do bom futebol começaram a reverberar em vários estádios de futebol espalhados pelo país. E aqui, em nosso quintal, ele veio em grande estilo, para deleite dos apreciadores do esporte mais jogado no mundo. Até no Taiti.

Desde o começo deste ano, a direção do Avaí Futebol Clube, cujo presidente é o senhor João Nilson Zunino – é bom lembrar porque algumas pessoas sempre esquecem, tadinhas – e com mandato até o fim do ano vigente, vem tentando montar um time competitivo para a temporada. E os resultados até agora têm se mostrado positivos. Passamos de fase na Copa do Brasil jogando um futebol de alto nível e praticamente estamos chegando a mais uma final no Estadual, cujo time em fase de preparação foi desprezado pelos jogadores de vídeo game.

O IMR, Índice Miguel de Resultados, que afirma haver apenas três resultados possíveis no futebol, o empate, a vitória e a derrota, dá como certa ao Avaí, no próximo sábado, lá em Criciúma, a garantia de dois deles, empate ou vitória, o que já é um alento. Imagina se a garantia fosse uma derrota? Tirando a sonsice radialística de lado, o fato é que o time do Avaí não é essa naba toda apregoada até agora e pode, sim senhor, ganhar lá em Criciúma também. Há vida inteligente ali. E isso está sendo provado pelas partidas que o Leão tem feito nos últimos jogos.

Jogos bons, jogos bonitos, jogos empolgantes e de pura raça e técnica. Claro que a síndrome de vira-latas difundida por aqui exige um Messi em cada posição e lances de Barcelona em cada partida. Mas aí, mo nego, não tem condissonx.

Curiosa a participação da torcida mais modinha do planeta. Agora, no filé mignon, resolveram ir ao estádio, o que é muito bom, haja vista que o Avaí precisa de dinheiro para montar o time do Barcelona que tanto exigem. E se o próprio treinador avaiano admite que a torcida pegou o time no colo, fato repercutido por dez dentre dez corneteiros para dizer que há um reconhecimento do quanto os jogos eram sofríveis, a obviedade gritante está exatamente naquilo que eu anuncio insistentemente por aqui: torcedor de futebol é importante no estádio e não no sofá de casa. Ninguém disse que são culpados, mas que são importantes. Engraçado é que eles mesmo se contradizem.

Por falar em torcida, seria interessante que a recepção dada aos torcedores da cidade do carvão aqui na Ressacada fosse retribuída lá no Sul do Estado. Embora haja uma ou outra rusga, no geral estas torcidas se entendem muito bem. As lições de civilidade e bom comportamento devem permanecer, portanto. Que a rivalidade e o jogo duro seja apenas no campo de estádio e não no entorno. Mãos decepadas, bombas e pedras lançadas em ônibus são coisas feias, viu, bobinhos. Dos dois lados.

O lance mais engraçado e peculiar do jogo deste domingo, contudo, foi o choro do Vadão. O que foi aquilo? Quer dizer que o goleiro cair no gramado e se contorcer feito uma dama em trabalho de parto é válido? Jogador simular contusão, ou tomar aguinha no campo e retardar a partida é estratégico? Mas gandula fazer uma cerinha é caso de TJD? Só espero que os auditores não queiram fazer um julgamento da cera também.

De resto, a semana vai ser longa e interessante, com cerol na linha. E já tem blog que ao invés de falar do Avaí prefere tentar me enquadrar. Sim, só tenta, porque pra conseguir me calar, meu querido, vai ter que comer muito beju com cardosa. Como a audiência da maioria desses blogs é fraca pra nada, vou ter que dar uma ajudinha para aumentar a platéia deles, é isso? Só espero que me paguem ao menos o direito de imagem.

Avaí 3 x 2 Criciúma

Que me desculpem Chapecoense e Figueirense. E é bem verdade que será preciso confirmar em campo. Mas em sã consciência quem vai dizer que o campeão do Estado, deste ano, não sairá do confronto entre Criciúma e Avaí?

Se numa partida se enfrentam as melhores defesas da competição, entre os felinos a disputa é entre os melhores ataques (dentre os quatro semifinalistas). Então a partida satisfez a vontade das torcidas em soltar o grito de gol.

E hoje saiu mais feliz a torcida do Leão que pode festejar ao final do confronto. E sejamos justos – por mais injusto que possa ser o futebol – se alguém deveria sair vitorioso hoje este deveria ser, como foi, o Avaí.

O sistema ofensivo do Criciúma já vem funcionando há mais tempo que o do Avaí, que engrenou faz poucas partidas. Mas é muito bom poder constatar a evolução do esquema tático do time da capital. Laterais avançando, de forma intercalada, e tabelando com os meias de forma “treinada”. Até parece que antes não treinavam.

Importante, destacar a participação do meia Higor no esquema avaiano. Preenchendo, adequadamente, o espaço exigido pela torcida de companheiro de Marquinhos no meio de campo.

Pelo Criciúma, os jogadores Sueliton e Lins, com velocidade, dão muitas dificuldades para os marcadores adversários e são destaques do time do sul do Estado.

Mas não podemos imaginar que na tarde ensolarada de hoje tudo foi flores. Diego, de certo modo, saiu de modo equivocado, quando do segundo gol do Tigre. E logo no início da partida, numa saída errada, poderia ter permitido ao Criciúma abrir o placar. Diga-se de passagem, os sistemas defensivos dos dois times precisam de uma especial atenção para a disputa dos campeonatos nacionais.

Além disso, o time do Criciúma veio para “ensebar” o jogo sempre que o placar era, de certa maneira, favorável. Cometeram muitas faltas no meia Marquinhos, nem sempre coibidas de forma devida pelo árbitro Heber Roberto Lopes, que deixou de aplicar muitos cartões amarelos.

Vou, ainda, mais além: parece que no “conselho arbitral” (se é que existe) antes do início do campeonato decidiram que não se poderia marcar penalidades máxima para o Avaí em jogos decisivos. Afinal, aos 9 minutos de jogo num lance de ataque avaiano, aparentemente, o jogador do Leão é derrubado na área.

Sou obrigado a dizer “aparentemente”, pois a TV que transmitiu a partida, apesar de exaltar a todo instante sua transmissão em HD e as suas 12 câmeras espalhadas pelo estádio, em nenhum momento reproduziu o lance para que, efetivamente, fosse possível saber o que ocorreu. Será que além de não poder marcar pênalti a favor do Avaí se está proibido de discutir os lances duvidosos?

Por fim, depois do jogo de hoje não é possível dizer que há definição do classificado, mas que o Avaí deu um importante passo para a classificação, isto é fato. Principalmente, se as “estrelas” de Higor e Tauã continuarem a brilhar.

Ah, Leão, Leão, Leão, Leão

Impondo um ritmo de jogo alucinante, Avaí e Criciúma fizeram uma das melhores partidas de futebol no Chevroletão 2013, pelas semi-finais. Jogo digno de campeões. Fôlegos presos, nervos em frangalhos, corações aos saltos pelas bocas, mas a partida, além da emoção, foi admirável. Tivéssemos invertido as tabelas, Tigre e Leão matariam os vices e decidiriam o título, como verdadeiros campeões que são.

O time do Avaí mostra que, seguindo a escrita, mantém a tensão de um jogo lá no alto. Não queira ir pra Ressacada e esperar um jogo morno numa partida decisiva. Se houver alguma faixa, alguma taça, algum título sendo disputado na Ressacada, o Avaí vence. Mas não será sem emoção. Jamais.

Os dois times aplicaram táticas do futebol moderno, com os meias armando jogadas na intermediaria adversária. E os laterais, os dois de cada time, fazendo passagens agressivas, pondo bolas nas áreas e dando trabalho às respectivas defesas. Os atacantes, de cada time, são terríveis e o Leão terá muito trabalho lá em Criciúma para segurá-los.

Destaque para os meninos da base avaiana, Alef e Tauã, que no meio dos marmanjos e veteranos mostraram personalidade e poder de decisão.

Marquinhos Santos, por sua vez, faz jus à preocupação tanto dos adversários, como de juizes-torcedores, chamando para si a responsabilidade e não se omitindo quando o jogo precisa ser resolvido. É o melhor jogador deste campeonato, disparado, e sem dúvida levantará o caneco na final, lá em Chapecó.

Fica o registro de quê este time foi montado pela administração Zunino, apenas para lembrar aos corneteiros. Sim, por que é muito bacana fazer festa e se divertir com as vitórias do Leão, mas se perdesse hoje ou na quarta-feira, tranquilamente a porrada seria avantajada, pesada e incontrolável. Se as pessoas fossem honestas, certamente estariam fazendo este reconhecimento. Mas, esperar isso dos comedores de pizza e pipoca é muito, né, nego?

As cartas na mesa

Fora os sujeitos e sujeitas que falam mal de costuras de camisas, que abominam as homenagens às cidades do nosso Estado, que pensam na próxima eleição para administrar a Ressacada, que estão preocupados com o sabor da pizza ou se podem ou não comer pipocas nos camarotes, o avaiano gosta de futebol. Ele vai ao estádio para assistir a um jogo de bola, de futebol bem jogado. E independente se há firulas ou dribles desconcertantes, ele também quer que seu Avaí vença de qualquer jeito. A cada vitória as frustrações e angustias, as maledicências, os pronomes e predicados são esquecidos.

Porque o futebol é o que o encanta. Por isso, muitos deles não largam o osso, se oferecem pra sofrer e aceitam cada partida bem ou mal jogada como mais uma etapa na busca dos sonhos de conquistas.

O avaiano é forjado na dificuldade.

Nesta tarde teremos mais uma página na história de glórias desse clube. À parte o resultado final, seremos mais uma vez protagonistas. Pois quando o Leão entra em campo, ou participa de uma decisão, todo o resto se volta para ele. A referência passa a ser ele, que cartas jogará e de que forma sairá vitorioso. Tanto é assim que os vices já se desmancharam para enfrentar o Leão numa final. E já há quem diga doladelá que se a vitória na final não for contra o Avaí, o campeonato não terá graça.

Neste domingo teremos uma decisão. Uma decisão antecipada, como já falei. Os dois clubes mais vitoriosos em nosso quintal estarão em campo. Não sobrará o menos pior, mas o mais capaz. Deste jogo sairá o campeão do Estado e, sem dúvida, será o Avaí.

Porque, em Santa Catarina, quem dá as cartas é o Leão da Ilha, os outros é que correm atrás.

Decisão antecipada

Enquanto o jogo que decide o Chevroletão 2013 não chega, nos divertimos com o jogo dos vices catarinenses hoje à tarde. Um está agoniado pra encher o estádio, fazendo até resto de feira. Outro fez uma bela Arena e depende se há Gre-Nal para que a torcida local vá ao estádio, e que ainda torça pelo time da casa. Coisa de clubes menores, evidentemente.

No domingo, o mais vezes campeão joga contra o time que só perde para o Avaí em quantidade de títulos aqui no quintal. É a decisão antecipada. O time deles vem com a motivação de ter crescido na reta final, após aquele empate decidido nos pênaltis pelo Celinho Quengo-Pelado. A propósito, muito curiosa a mudez assumida pelo pessoal do TJD/SC, tão zelosos pela manutenção da integridade moral do Estadual e agora se submetem às suas preferências futebolísticas. Como é que é? Vão ficar enfazadinhos por a gente dizer que são torcedores alvinegros e que, por isso, quiseram emparedar o Marquinhos? Se isso fosse contado em Marte ou Júpiter, as pessoas de lá diriam as mesmas coisas: não têm competência para julgar o nosso futebol, portanto, saiam e dêem lugar para outros mais qualificados. Na minha formação eu aprendi a duvidar; dessa forma, duvido que não haja um coração alvinegro batendo nestas decisões. Ué, não é assim? Eu assumo a minha preferência. Por que eles não assumem as suas?

Mas, voltando à bovina refrigerada, jogaremos um jogo com o qual estamos habituados: uma decisão. Desde que me conheço por gente o Avaí nunca perdeu um decisão em seus domínios. Só aquela na qual gás de pimenta e cavalaria falaram mais alto, porém, já devolvemos com juros e santanas correções devidas. Como é? Aquela decisão de 1999 não foi em nosso campo? Tem certeza disso?

O Criciúma vem com moral de estar na Série A. Impõe respeito, por isso. Tem a seu lado a mídia boca alugada da Capital, que adora defender os interesses dos outros, menos dos daqui. Seu time é muito forte e competitivo. Tem força no ataque e boa coordenação no meio. Bem típico daqueles times que o Avaí adora vencer. Sim, se já enfrentamos campeões nacionais com a empáfia devida partida deles, goleando e chamando pra dançar, o time dos caras que adoram reclamar de nossas acomodações será mais um na conta.

Domingo é dia de decidir. Decidir se vamos golear no primeiro ou no segundo tempo. Se prepare, Criciúma, que vamos lhe usar. Recomendo um banhozinho de assento.