A gente faz sem você

Quem ouviu pelas rádios o jogo de ontem entre Volta Redonda e Avaí ficou com a impressão de que o time do Sul da Ilha jogou bem. E que perdeu nos detalhes. Soubesse-se que algumas jogadas foram bem trabalhadas e alguns lances capitais poderiam ter resultado em gol. Alguns jogadores sobressaíram e foram bem na partida. Também ficamos sabendo que a jogada do gol do time da casa parece ter sido faltosa, embora pelas declarações ao fim da partida o técnico avaiano tenha isentado a arbitragem.

Eu ouvi por uma rádio do Rio de Janeiro e pelo que afirmavam o nosso time fez uma partida de bom nível técnico e teríamos que ter uma melhor sorte. Cheguei a ouvir que temos um time de qualidade, coisa que virou tabu se dizer por aqui, na terra de maior concentração de grife do planeta. A propósito, ouvi por uma rádio “estrangeira” exatamente porque as daqui seguem a mesma toada da rede famosa, desmerecendo os locais e bafejando quem é de fora. No dia em que valorizarem as coisas da terra terão meu respeito.

Mas ficamos assim, na confiança do que diziam os radialistas e alguns repórteres de campo. Ficamos na imaginação dos lances. Acreditamos no que os outros disseram. E por quê? Ora, porque a rede de mídia local não transmitiu o jogo pela TV. Aliás, nenhum dos jogos dos três times catarinenses. Isso é vergonhoso.

Há muito tempo tenho restrições à famosa rede. E não é birra automática ou gratuita, uma vez que até assisto à programação e de vez em quando ouço a sua rádio e até me dou ao trabalho de ler os seus jornais. Exatamente para formar opinião. Mas contesto sua postura e sua forma de conversão cultural. Eles nos impõem uma maneira de pensar que não é e nunca foi a do nativo ilhéu. A linguagem subliminar é gritante e tem transformado nossos gostos e costumes. Além do mais, desse dumping cultural, exploram as coisas da terra e nos devolvem os caroços.

O jornalista Ricardo Noblat, do globo.com, diz em “A arte de fazer um jornal diário” que, “por orgulho, soberba, vaidade ou ignorância, jornais e jornalistas procuram fazer de conta que só acertam. E, quando são pilhados em erro, custa-lhes admitir que erraram. Os jornalistas temem ser punidos por seus chefes. Os jornais temem perder leitores” (NOBLAT, 2002: 40)*. Alguém já viu isso por aqui? É claro que muitos se intimidam diante do chamado quarto poder. Outros por medo de ter seus interesses atrapalhados.

Se alguém já assistiu ao Jornal do Almoço, deve saber que são recorrentes em reportagens onde denunciam a falta de competência das administrações públicas e, frequentemente, uma obra inacabada ou um ato administrativo é levado ao ar sob pressão para que seja executado. Dias depois, ocorre a execução daquilo que foi apontado, sem que se informe que aquele assunto já estava em andamento ou já estava finalizado. Mas fica a impressão para os telespectadores que foi a matéria-denúncia que agilizou ou mesmo finalizou aquilo que estava pendente. Isso tem um nome: desonestidade intelectual.

Do ponto de vista do futebol, o campeonato catarinense sofre com a presença deles. E a preferência por apenas um clube em Santa Catarina é marcante. Investem, também, migalhas para o campeonato e exploram e sugam o que podem dos jogos sem uma contrapartida financeira viável. E o curioso é que, mantendo o campeonato sob seu contrato, dão pouco prestígio e não o faz avançar com a visibilidade necessária, expondo descaradamente o monopólio midiático. Se o futebol moderno é marketing e imagem, a rede dá uma aula de como não fazer isso crescer e se desenvolver.

Um exemplo claro de como isso é feito foi dado no domingo passado, quando pela segunda vez nesse ano, o maior clássico de Santa Catarina, Avaí e Figueirense, foi largado para um horário periférico. E nesta quarta-feira, a não transmissão de qualquer um dos jogos pela Copa do Brasil, onde catarinenses estavam em campo, demonstrou pouco caso para com as agremiações locais. Não estão dando a menor bola para as nossas coisas e ficamos todos por aqui com cara de paisagem.

Ah, sim, alguns ginasianos juvenis dizem que isso é desse jeito por força do contrato. E, mais, são capazes de acusar uma crítica a eles como obra de teoria da conspiração. Querem enganar a quem estas virgens vestais?

* peguei essa frase do Observatório da Imprensa, em Imprensa em Questão, “Erros revelam falta de habilidade com o leitor”.

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2 pensamentos sobre “A gente faz sem você

  1. Alexandre,

    É aquilo que escrevi, ontem, no twitter: Não é público, mas é notório que os horários das partidas de futebol são decididos pela TV.
    Por isso, não é compreensível que a RBS não tenha se “esforçado” para modificar o horário de um destes jogos para 22h, e assim poder transmitir a partida.
    Ou seja, não há qualquer outra explicação. Foi falta de interesse mesmo! Pelo menos até que haja prova em contrário.

    Abs.

    Gilberto

  2. Sem dúvida, Gilberto. Mostrar um jogo dos nossos times pela rede, com patrocínio de empresas locais, só tenderia a levantar o interesse. Feito assim, me parece burrice, embora a gente saiba que de tansos eles não têm nada.

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