Fogueira das vaidades, guerra de egos ou “estou aqui apenas querendo ajudar”?

Os recentes depoimentos que pipocam nas redes sociais e em blogs sobre a participação de torcedores como auditores no TJD remete à discussão mais antiga da necessidade de se chamar árbitros de futebol de praças distantes dos times que se enfrentam em determinada partida. Num jogo entre times de Santa Catarina e Paraná, por exemplo, o árbitro deve ser gaúcho, paulista, ou de qualquer outro Estado que não o deles em campo. Também não é considerado prudente que entre seleções de futebol de países que se enfrentem árbitros do mesmo país de uma delas apitem seus jogos.

Da mesma forma, num tribunal comum, não se recomenda que o juiz presente seja parente ou próximo da vítima ou do réu, nem mesmo os jurados, se for o caso. E por quê?

Por acaso se põem em dúvida a honestidade ou o idoneidade do árbitro, do auditor ou mesmo de um juiz? Não, claro que não. As dúvidas e discussões serão feitas após a partida e não antes. O afastamento de proximidades é exatamente para se evitar isso e se preservar a sua competência daí por diante.

Por isso, causa espanto que alguns auditores do TJD catarinense estejam se desculpando em comentários extensos, ou tentando provar que “não é bem assim”. Lamento que estejam incomodados com a dúvida, mas é bem assim que deve proceder a sociedade, sim. É da prática republicana ser cética. E somos humanos, se não sabem. Não há nada de anormal todos nós, cidadãos comuns ou juízes e auditores, agirmos ao lado dos nossos. É da nossa espécie este sentimento altruísta, de assegurar “primeiro os meus”. Nossa mente é formatada dessa maneira, desde quando descemos das árvores, a decidir assim.

O córtex pré-frontal, essa porção do cérebro na região da testa é quem toma as decisões e se baseia no que o restante do nosso cérebro aprendeu. A capacidade de cognição começa desde a vida intra-uterina, desde quando nos assentamos no mundo e isso vai até antes de batermos as canelas. Portanto, é da natureza humana tomar uma decisão baseada no que aprendemos ao longo a vida.

Não somos uma máquina cheia de botões para diversas atividades e que basta apertar um para se fazer uma função distinta. Fazemos todas as funções possíveis ao mesmo tempo. E, por incrível que pareça, quem tem mais capacidade intelectual faz muito mais coisas ao mesmo tempo e decide tudo em conjunto.

Assim exposto, é perfeitamente natural que juízes e auditores envolvidos na sua vida de alguma forma com seus clubes do coração decidam alguma coisa em seu favor, em algum momento e, principalmente, nos momentos mais críticos, que é quando a atividade cerebral mais se encharca de neurotransmissores e hormônios. E é quando emoções e razão interagem.

Dessa forma, para se evitar qualquer constrangimento ou dúvida fugaz, é recomendado que um auditor ou juiz com esta carga de ação se afaste quando algo relacionado ao seu clube esteja em voga. É possível até que faça com isenção. Presume-se que alguém assim seja dotado de imparcialidade o suficiente para legislar em causa da justiça. Porém, basta um senão, uma vírgula, um ato diferente do natural e toda uma postura pode ser discutida. E nenhuma vaidade é válida se a decisão for posta em dúvida.

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