Quando o gol e o sonho satisfazem

O discurso comum e político de marqueteiros no âmbito do futebol é tratar o torcedor como cliente. Ele deve ser bem mais que um apreciador de belas jogadas e habitantes de sonhos, ele deve associar isso e comprar o seu produto, as commodities de seus clube. No mundo dos negócios e do comércio, por sua vez, há duas coisas que revertem as baixas vendas e o risco de queda do empreendimento: uma delas é a famosa SURPREENDA O CLIENTE e a outra é NÃO EXISTE PRODUTO EM FALTA.

Quando alguém vai a uma sapataria trocar o pisante, normalmente o objetivo de qualquer cliente é trocar aquele monte de panos ensebados e couros desgastados por algo que esconda seus dedões tortos e sirva de consolo para as caminhadas cansativas, que lhe apertam os calos. Mas, por mais que se tenha gostos e atitudes diversas, ninguém realmente sabe o que quer. Um couro italiano clássico, uma sola elástica para os “arranques”, cores agressivas ou vistosas, são indistintos se não forem bem apresentados. Depende, e muito, do vendedor para dar satisfação ao dono de calos alheios e oferecer-lhe algo apreciável. E mesmo sendo bem atendido ele pode sair daquela loja e comprar em outra um produto, às vezes, bem menos “elegante” do que na primeira. Talvez porque não tenha sido surpreendido.

Assisti à muitas palestras cansativas e enfadonhas no âmbito dos sistemas de qualidade. O discurso, em sua maioria, é sempre o mesmo: satisfazer o cliente. Surpreendê-lo. Tornar aquela cara sisuda que entra em seu estabelecimento pronto para lhe dar um tiro se você não o atender bem, em alguém que verta lágrimas pelo seu atendimento, pela sua preocupação para com ele. Dar-lhe muito mais que um produto, ofertar-lhe uma fantasia. Esse vendedor jamais poderá dizer que o produto está em falta. Nunca! E também deve surpreender o cliente com algo a mais, uma cor que ele não pensava, um brilho, um laço, um solado diferente. É um exercício de imaginação e criatividade em via de mão dupla.

É assim que os clubes de futebol na tribo do Avaí, aqueles que não possuem tradição no futebol nacional, ou se muito, disputam uma ou duas competições por ano, parecem ter que se comportar com o seu torcedor, seu assim chamado cliente. E essa é a lógica equivocada da atualidade difundida por dez dentre dez marqueteiros de plantão no mundo do futebol.

Ocorre que o torcedor de futebol, diferente do dono dos calos, já sabe o que quer. Ele traz algo em si, em seu íntimo, algo que provavelmente o consumidor de sapatos não tenha: o sonho. E é isso que o faz frequentar um estádio na pior das pindaíbas. Quando ninguém dá mais nada pelo time, pelo clube, ele esta lá. Eu falo do torcedor que acompanha o clube, não os modinhas que acompanham times. Ele, o torcedor do clube, espera por uma satisfação que já dimensiona qual seja sem nem mesmo ter visto. Porque ele tem um sonho, ele alimenta uma fantasia.

No mundo moderno do futebol a coisa tenta ser bem mais simples do que no comércio, porém os pensadores do tal marketing insistem na venda e não na manutenção do sonho. O torcedor (mal) chamado de cliente deseja, simplesmente, aquilo para o qual um time de futebol é destinado a fazer: vê-lo jogar bola. Surpreenda-o com bom atendimento, faça-o se sentir importante e nunca, jamais e em hipótese alguma permita que falte duas coisas: o futebol e os seus sonhos. Porém, se tiver apenas o futebol e os sonhos, as outras coisas são irrelevantes. Passam desapercebidas. Não são as camisas, o belo uniforme, o estado do gramado ou o serviço de bar que levam o torcedor ao estádio.

Todas as outras coisas, teorias de marketing, planejamentos, gestões de qualidade e trivialidades à parte de nada adiantam se a bola, aquela cuja cobiça é imensa, não entrar no gol quando for preciso. A melhor estratégia de marketing no futebol é montar um time que faça a bola estufar as redes tantas e tantas vezes quantas forem necessárias para fazer olhos brilharem e corações pulsarem. E é este torcedor que vai ao estádio, sem se importar com PPV, ingressos, filas, climas e dificuldades diversas, espera ver. É o que basta para ele, mesmo que no seu íntimo perceba que daquele mato não sai um quero-quero emplumado!

Não vendemos carne, pipocas e nem sapatos na Ressacada. Montamos planos e estruturas que alimentam resultados, sonhos e fantasias. O resto é lenda.

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