Livrai-nos de todas as dívidas

Às relações sociais que garantem o sistema de produção damos o nome de TRABALHO. A matemática simples de produção e obtenção de resultados faz toda a máquina social se mover e crescer. É um processo linear onde homens e mulheres vendem sua energia para que haja o desenvolvimento da sociedade. Estudiosos das mais diversas vertentes políticas e econômicas já teorizaram à exaustão todo este processo, sem que hoje se chegue a uma fórmula consistente.

A abordagem que eu faço, inicialmente, sobre o trabalho, reflete também a preocupação que se tem com a capitalização e investimentos que é feita no âmbito do futebol. E, consequentemente, às dívidas contraídas pelos clubes.

Todos nós que acompanhamos este esporte sabemos o quanto ele cresceu por aqui, em terras tupiniquins. Nos últimos dez anos, com a caracterização dos contratos de TV, com a consolidação dos agrupamentos entre os clubes, com as gigantescas ações de marketing, os planos de sócio-torcedores e a estabilização financeira do país deram uma cara profissional ao futebol, como nunca antes tivemos. Ao mesmo tempo, o futebol depende de mecenas endinheirados, investidores abnegados e de desvios criminosos para que os clubes se mantenham no topo de suas performances e compitam com as grandes corporações européias e asiáticas. É uma corrida onde a linha de chegada quase beira ao infinito.

O futebol, diferente do que muito curioso mal informado opina, não pode se comparar a uma máquina de linha de produção. A capitalização, na imensa e grande maioria das vezes, não dá os resultados esperados como numa fábrica. Está envolvido com diversos cenários, muitas vezes dramáticos, que se inter-conectam numa teia disforme e incompreensível. E, por mais incrível que possa parecer, diferente da lógica econômica e administrativa habituais, quanto mais um clube cresce no âmbito das competições, mais se envolve em dívidas.

As receitas no futebol, em nosso país, evidentemente aumentaram. E por isso já é possível ter em nossos times jogadores que antes só corriam em gramados estrangeiros. É possível, também, se competir de igual para igual com as grandes equipes que antes acalentavam sonhos do imaginário popular. Mas isso tem um preço. Fazer futebol não é a mesma coisa que aumentar a produção de parafusos de forma a aumentar os lucros e a competitividade de uma empresa. Aliás, muitos clubes pagam para aumentar a produção dos parafusos, se a comparação for essa. E por isso contraem dívidas, muitas delas impagáveis. Tudo porque o faturamento não é, de forma alguma, maior que os investimentos efetuados para manter um clube na competição em que deseja estar. A saída inteligente, natural e elementar é fechar o clube, por tudo o que isso representa no mundo dos negócios.

Ocorre que não existe um projeto, ou alguma coisa consistente, que leve a se saldar as dívidas. O que mais se vê são engenheiros de obras prontas a dar palpites sem noção elementar de um cadeia produtiva. Porque comparam futebol com uma fábrica ou comério. Muito pelo contrário, a atual estrutura do futebol brasileiro leva os clubes a investir mais e contrair muito mais dívidas, exatamente para se manter no mecado. Qualquer dos clubes brasileiros que participe dos campeonatos diversos está endividado, por erros ou carências de definições em sua estrutura administrativa, mas também pela própria organização do panorama em si. Na imensa maioria das vezes se usa um dinheiro recebido para se pagar dívidas atrasadas. E as dívidas atuais contraídas serão pagadas lá na frente, quando outra porção de pote de ouro cair no colo da administração dos clubes. É uma snow ball crescente e interminável.

O governo federal já aplicou projetos cujo intuito é dar uma máscara de oxigênio ao grandes clubes do futebol brasileiro (e os pequenos como Avaí, Figueirense e Criciúma, para ficar nos mais importantes por aqui, correm atrás disso, ainda que suas dívidas sejam bem menores). Até porque, se nada for feito nesse sentido, o futebol nacional desaparece em menos de cinco anos. Entretanto, o outro lado da moeda é o relaxamento do compromisso em se pagar ações trabalhistas, por exemplo, que se avolumam na maioria dos clubes sem um alento definitivo. Há quem defenda que a administração do futebol brasileiro siga exemplos de países como Inglaterra, Espanha ou mesmo Alemanha, cujo campeonato é o de maior faturamento no planeta, com percentuais baixos de dívidas. Mas é a história de se olhar a grama verdinha do vizinho sem que se dê solução para a nossa, que míngua e seca a olhos vistos.

Muita gente trata o negócio do futebol de maneira provinciana, apenas vendo a situação de seu clube, quando toda a estrutura do futebol está doente. Tenho lido comentários de torcedores avaianos dizendo que o Avaí irá penar daqui por diante em razão de sua dívida, o que prova ser pessoas com visibilidade tacanha do futebol. Todos os clubes estão em dificuldades e não apenas o Avaí, que é apenas um elo, dos menores, numa cadeia longa e vasta. Temos que enxergar os casos de forma equilibrada, com vontade em querer achar um recurso plausível e não lambendo os próprios umbigos.

A solução, ao meu ver, é conjunta. Parte de iniciativas governamentais em não tratar o futebol como uma fábrica ou um comércio, dos administradores das federações em organizar campeonatos produtivos, das redes de TV em financiar e não apenas explorar os campeonatos, de torcedores que, definitivamente, devem abraçar a causa de seus clubes e não apenas participar na hora da boa fase, e de dirigentes dos clubes e agremiações, que pensem no futebol como um negócio para acalentar sonhos e não apenas para melhor a aparência do parafuso.

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6 pensamentos sobre “Livrai-nos de todas as dívidas

  1. Alexandre,

    Se me permites vou comentar o seguinte trecho:

    “Parte de iniciativas governamentais em não tratar o futebol como uma fábrica ou um comércio, dos administradores das federações em organizar campeonatos produtivos, das redes de TV em financiar e não apenas explorar os campeonatos”

    1) “Parte de iniciativas governamentais em não tratar o futebol como uma fábrica ou um comércio”
    Por mais impopular que seja a medida, o Governo precisa deixar de “passar a mão” na cabeça das federações/confederação e clubes de futebol brasileiro. Digo isso, por que na minha concepção é inaceitável, por exemplo, que o governo institua uma loteria para que os clubes utilizem dinheiro do contribuinte para pagar seus débitos tributários e fiscais.
    E o que é pior, os clubes continuam a pagar altos salários para técnicos e jogadores. Isso sem falar nas federações e confederação cujos dirigentes recebem salários exorbitantes.
    Mas qual governante teria coragem de tomar uma atitude impopular como esta?

    2) “administradores das federações em organizar campeonatos produtivos”
    Cá entre nós, os torneios estaduais servem como forma ilusória de que um título possa ser conquistado. Torneios melhor organizados e/ou espaços no calendários fariam com que os clubes pudessem angariar receitas bem melhores, não tenho dúvidas.

    3) “redes de TV em financiar e não apenas explorar os campeonatos”
    Este ponto mostra o quão desunidos são os dirigentes de futebol.
    Mas vou além, e já tratei disto no meu blog, além de ter relação ao ponto 1, acima: a TV Brasil, com financiamento da Caixa e da Petrobrás é quem deveria ter o direito de transmissão dos campeonatos nacionais. E os clubes receberiam melhor do que recebem atualmente e de forma mais justa e não teriam opção, afinal devem, em sua maioria, para os cofres públicos.

    É isso, por enquanto.

    Abraços.

    Gilberto.

    • Gilberto,

      1 – Exatamente por se tratar como atividade comercial o futebol gera dívidas. Porque não há produção que capitalize os investimentos. É lógica da mais-valia, que não existe. Por isso que falei do trabalho e na dialética que isso engloba no 1o. parágrafo. O futebol é uma instituição que deve se auto-gerir, sem depender do Estado ou de financiamentos públicos para seu funcionamento. Da mesma forma, não deve ser tratado na relação capitalsita de mercado. Em países onde ele é profissional e que tem um bom cacife financeiro, como na Alemanha, dá certo. Nos demais, discute-se caso a caso, mas a tendência é um fracasso, como o que já ocore na Itália e logo será na Espanha.

      2 – Os nossos campeonatos deveriam ter ligação com os nacionais, por ranking. Por exemplo: os regionais cariocas, paulistas, mineiros e gaúchos teriam clubes nas fases intermediárias da Copa do Brasil. Os catarinenses, paranaenses e baianos, com outras vantagens e assim por diante. Tem que valer à pena, em âmbito nacional, ser campeão catarinense. Isso depende em se federalizar os campeonatos e não estes guetos que temos hoje.

      3 – O monopólio da Rede Globo e suas afiliadas é inegável. E por isso não concordo em que os dirigentes aceitam qualquer contrato. Eles aceitam o contrato que “as globos’ oferecem porque é o que dá mais visibilidade. De quem adianta jogar sendo transmitido pelo SBT se ninguém vê. Se nem em todos os lugares ela é acessada. Se a TV Brasil assumisse isso, como a BBC faz, o negócio poderia ser diferente. Mas, por enquanto, papagaio come milho e Globo-RBS leva a fama.

      Manda mais coisas. hehehe
      Abraços

  2. Aguiar, sobre o último comentário, o qual fala das “Globos”, discordo na questão de visibilidade.
    Hoje a Globo não é tão suprema como em tempos passados. Ainda é a maior, isso é fato, mas vem perdendo espaço continuamente.
    Outra questão é sobre a oferta x demanda.
    Pq assistimos os Chevetão na RB$?
    Óbvio, ela é a detentora da exclusividade pelas transmissões em canais abertos.
    Se os clubes largassem a barra da saia da RBS (nosso caso) e fossem atrás de outras possibilidades, poderiam buscar melhores contratos.
    Eles ganham uma merreca, se sujeitam a horários ridículos, transmissão para a praça local e uma péssima equipe de profissionais.
    Façam leilão, busquem melhores alternativas, fiquem 1 ano sem transmissão para mostrarem os seus valores, enfim, busquem os seus direitos.
    Se o Zequinha-RS ganha mais da RBS do que os grandes de SC, a culpa é dos nossos clubes.

    SdX

    • Meu caro, esse é o mundo perfeito e que almejo, mas não é o real. Infelizmente, para meu desespero, não tens razão. A globo é, sim, a corporação de mídia mais vista e visitada do país. Seja a TV, seus jornais, rádios, revistas e internet. Ela engloba (ops!) praticamente todos os aparatos midiáticos. E se os clubes já vivem na pindaíba com os contratos globais, sem ele como tu queres, por um ano, é a decretação da falência total. Nenhum patrocinador irá querer fazer contrato com um clube que não aparece.
      Por isso, o modelo econômico no qual mergulha o futebol brasileiro tem que ser mudado.

  3. Aguiar, falo inicialmente do Chevetão que é promovido pela RBS.
    Não pode se jogar fora, mas 450k para o Avaí não paga metade da folha.
    A gente fala do Avaí, mas não é exclusividade nossa ter essa desvalorização.
    Enquanto aceitarmos a miséria dada pela RBS, eles vão continuar mandando.
    E se os clubes disserem que não aceitam transmissão do catarinense por essa “migalha”?

    Aguiar, tivemos o Juventus ameaçando de desistir por falta de dinheiro. Qto eles recebem? 150 mil?
    Fazer futebol profissional por 4 meses com esse valor é quase impossível.

    Isso da uma tese. Como sou contra a RBS, já iria procurar alternativas. 🙂

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