O futebol que não se liga

A final da Bundes-Champions League, assistida neste Sábado por milhões de babões grifeiros ao redor do planeta, chama a atenção pela imposição científica no futebol moderno. Sem muito perceber, torcedores que amam o tal futebol-arte deixavam lágrimas correr pelo excesso de organização e burocracia daquela competição e dos times em campo, numa contradição evidente ao que é o próprio futebol, para o sonho do capitalismo. Não se percebeu o suor do medo pela impossibilidade correndo naquele ambiente.

Todo mundo que esfria a bunda numa arquibancada, que sente o calor das torcidas ou mesmo que já bateu uma bolinha num gramadinho qualquer nos terreninhos baldios sabe que o bom futebol é aquele esporte do improviso. Se ninguém apreendeu ainda, as regras existentes no futebol estão ali para serem quebradas. Na falta cavada numa artimanha gera-se uma cobrança na gaveta e um gol. No pênalti dado na simulação do atacante, a possibilidade de uma vitória, quando não é dado, a discussão das possibilidades. O drible é o contorno do esquema tático, a arrancada do artilheiro é a derrota do preparo físico do adversário. O baixinho habilidoso põe no chão o zagueiro brucutu bombadão e bem preparado. No futebol, para sermos eficientes e eficazes, quebramos as normas da lógica, da física e da ciência. E das 17 regras.

Claro que com o crescimento da mercantilização no futebol, da profissionalização dos atletas e da organização dos grandes espetáculos, as partidas, como esta da final européia, se tornaram verdadeiros shows. Sem dúvida alguma, a produção é magnífica. As ligas alemãs, inglesas e espanholas cresceram em organização e transformaram o futebol em uma ária de ópera. Mas cadê o coração? Onde está a bola jogada entre as pernas? Quem escondeu o improviso? Cadê a várzea?

Sim, alguém dirá que grandes astros do futebol mundial, juntados num mesmo time, proporcionam boas jogadas, lindos lances, jornadas apoteóticas, o que me lembra James Cameron no cinema fazendo memoráveis blockbusters com auxílio dos computadores e ajudado por magos dos efeitos especiais. Os atores estão ali para compor o cenário. O futebol destas grandes competições virou isso, algo plástico, montado e bem organizado, que qualquer moleque dos vídeos games faz em casa sem muito esforço.

Não estou defendendo a bagunça. Pelo contrário, com ela os medíocres se arvoram como vencedores. Organização, em qualquer ramo da atividade humana, é essencial. Mas as fórmulas fechadas, os modelos prontos, as receitas credenciadas fazem a magia do futebol, esse troço que nos fez sair de calções e chinelos na infância atrás de uma bola e voltar com os joelhos ralados, perder a essência. Há que se ter dúvida no futebol.

Prever resultados, ter lógica, montar sentenças aritméticas no futebol faz com que ele perca a sua beleza, que são, obrigatoriamente, as chances da imprevisibilidade, de o menor vencer o maior, de o maior sentir dificuldades e de todos nós, torcedores, ainda termos um coração pulsando em cada partida de nosso time.

Para mim, que detesto grife, sou contra o neoliberalismo e curto o improviso inteligente, o futebol deste sábado, jogado lá em Londres, não me representa.

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