Quando a conquista sai derrotada

Os brasileiros têm um comportamento, talvez único no mundo, que é a execração daquilo que dá certo. Em todas as esferas, em todos os níveis, quando algo vai bem, diz-se que é sinal de que ou alguém está levando vantagens, ou o contrário afrouxou, ou poderia ter sido bem melhor. Dificilmente as conquistas, em qualquer situação para onde se aponte, são tidas como legítimas e merecedoras. Ou que tenha sido feita a justiça. É o comportamento que Nelson Rodrigues definiu muito bem como síndrome de vira-latas.

Claro que há as considerações e as salvas pelas conquistas. Nem todo mundo é murrinha. Mas elas ficam apagadas, pois há o ranço, a insígnia de que tudo é falcatrua, o degredo ao que é bom, que acabam poluindo as congratulações. Sair comemorando quando algo dá certo é sinal de que este felizardo tem algum interesse na história, dizem os lúcidos. Alguns dirão que é a inclinação pela crítica abusada, abusiva e necessária, porém, percebe-se, é desmerecimento mesmo, pois o vizinho é capaz de fazer igualzinho e os apupos a ele serão dados como a um herói regenerado.

É a exacerbação de um ceticismo ingênuo. Sempre há o pezinho atrás, que poderia ser revertido em boa vontade.

– É, foi bom, mas…

A contundente vitória da seleção brasileira sobre a famosa Espanha, até então tida como ajuntamento de ETs que vieram bater uma bolinha no Planeta Terra, já está sendo considerada por vários torcedores e por especialistas de plantão como algo arrumado. Uma encenação. O jogo foi comprado para dar ânimo ao que se quiser que falte ânimo. Jogadores espanhóis também estavam cansados e não resistiram ao bom preparo físico da seleção brasileira. E todas as desculpas possíveis e imagináveis estão sendo dadas para o enorme banho de bola verde e amarelo sobre os toureiros, testemunhado por milhões em todo o mundo.

Em um jogo normal a seleção de prancheta jamais perderia para o Brasil dos fracassados, dizem os que não tapam o sol com a peneira.

Talvez se perceba aí o mesmo entusiasmo em apontar defeitos e erros que levou a se fazer protestos nas últimas semanas, em todo o Brasil, com a defectível pose de “manifestos pela democracia”, quando o país que ia dando certo foi, de repentemente, retirado do rol das nações que sobressaem apesar das dificuldades, por adolescentes mimados e classe média que reclama de barriga cheia.

E talvez seja também, guardadas as proporções, quando olhamos cá para o nosso quintal, a mesma inclinação de meia dúzia de amadores a viver achando defeitos a toda hora em todas as instâncias do Avaí Futebol Clube. Até em atos administrativos de caráter interno apitam sempre contra o clube. Haja viralatismo!

A re-estréia do Avaí na série B deve ser tomada como um começo de muitas expectativas. Se há energia para só ver defeitos, isso bem que poderia ser revertido para uma aula de estímulo, um revigoramento da função de ser torcedor que foi esquecida em algum canto arrivista de nossas bandas.

Só o que derruba esse viralatismo é a boa vontade. Cadê?

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