Licença para não torcer

Muito se fala em transferência de responsabilidades nos momentos em que torcedores são chamados a participar de qualquer iniciativa que erga a condição do clube. Parece que, visto dessa forma, a responsabilidade por continuar a manter o clube na esperança de uma reviravolta deve partir da direção do próprio clube, de seus funcionários, de jogadores e de torcedores chapas-brancas, aqueles que apóiam o clube em quaisquer circunstâncias, mas é uma situação que nunca se espera de qualquer outra categoria de torcedor. Estes outros, por dever moral, segundo essa ótica, estão dispensados de ajudar ou apoiar. Só irão usufruir quando houver conquistas, pois para as derrotas e momentos de crise, devem se afastar, ficar ao largo, preservar-se para não passar vergonha.

Há quem diga, também, por uma retórica descompromissada, que o fato de se adotar responsabilidades em momentos de tristezas e crises do clube de futebol pelo qual se diz torcer é imputar culpa aos torcedores, esses coitados! Sofrem tanto e ainda tem que torcer! Isto, esta postura do tô fora! é defendida como algo perfeitamente natural, tão comum quanto o dia suceder a noite.

É perceptível que o discurso emotivo e melodramático, de torcer até morrer pelo clube, se desfaz quando se estabelece uma relação de negócios, quando a responsabilidade em abraçar uma causa pelo clube está atrelada naquilo que possa haver de retorno econômico e financeiro, como produtos, badulaques e souvenires vendidos em lojas oficiais, promoções de ingressos, importâncias dos times adversários nos rankings das federações e até, acredite se quiser, salgadinhos e pipoquinhas em camarotes e arquibancadas. Se nada disso for cumprido, tendo sido estabelecido num contrato etéreo, o torcedor assume o compromisso de abandonar o clube.

Ocorre que a responsabilidade por alguma coisa, segundo os teóricos, é o que torna a vida em sociedade mais saudável e é obrigação de qualquer cidadão envolvido em algum processo da vida em grupo. É o responder pelos seus atos ou de terceiros, garantindo a vida em coletividade, mas é também um fardo descartável e perfeitamente transferível, uma vez que dói muito tomar atitudes, cumprir deveres e estender as mãos.

Quando um problema se instala em algo que nos está próximo e dizemos “Isso aí não é comigo, foram eles que fizeram, não fui eu, então que resolvam.”, está estabelecida a maior e mais completa falta de responsabilidade que se conhece. O importa-me lá é o comportamento dos frouxos e covardes. Isto, sim, é transferência de responsabilidades.

Muita gente imagina que torcedor de futebol é uma entidade celestial, imaculada, dotada de prerrogativas que o fazem viver à margem das atividades desse esporte e que deve ser preservada dos dissabores apresentados no futebol. A ele, ao torcedor, só é dada uma função: ir ao estádio e torcer pelo seu clube nos momentos de glórias. E o clube que o respeite, pois ele já faz muito praticando isso, que é torcer desbragadamente.

– Era só o que faltava, um time ruim, uma diretoria de bananas e eu ainda tenho que ir lá dar apoio. Saiam do atoleiro que eu volto, – diz o torcedor (in) consciente de suas responsabilidades e santinho de pau oco.

Na atividade do futebol todos têm as suas responsabilidades. Mas quando se tira do contexto para se colocar um pretexto, as responsabilidades são liberadas. E pedir responsabilidades é botar a culpa em torcedor, ora, vejam só!

Anúncios

Um pensamento sobre “Licença para não torcer

  1. Na boa e na ruim todos temos responsabilidades.
    Clube, jogadores, diretores chapas azul e branca.

    Só um “adendão”: lembra que já comentei que o torcedor de hoje escolhe o que quer para o clube de amanhã?
    Pois bem, as contratações mais baratas, entendo que sejam feitas por falta de lastro financeiro, ou seja, recorremos a jogadores mais ainda em formação ou sem grandes destaques, onde a margem de erro é infinitamente maior.
    …mas tem CS, MS, EC,…que são caros. Contratados e integralmente pagos pelo Avaí, acho que temos poucos, e os que temos estão mais para genéricos do que primeira linha.
    Não vou desmerecer o time do Avaí, acho que teria condições de estar bem a frente na tabela. Acredito ainda que isso acontecerá com o passar das rodadas, porém com um grupo mais coeso e com peças de reposições a altura, certamente a situação seria melhor.
    Sem mágica ou perspectivas de melhoras, vamos de 3 mil até que todas as engrenagens entrem em funcionamento.
    Que o primeiro turno seja de recuperação e o segundo para o ataque ao G4.
    Quem sabe uma sequência de vitórias tragam alguns torcedores extras.

    SaudaçÕNXX

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s