Ouvidos grávidos

Há muito tempo não tenho escutado a rádio que troca as notícias. Não tenho necessidade e ela não me representa. Mas é perceptível sua influência em nossa cidade, principalmente dentre torcedores avaianos. O que falam por lá, o que afirmam na latinha é imediatamente acolhido como verdade olímpica e decretado como definitivo pela maioria dos torcedores doladecá. Nem as palavras do Papa são mais bem recebidas que os “ensinamentos” proferidos por esta rádio. Assim como enganam os pessoal do time do Estreito com o otimismo, enganam os nossos com o extremo pessimismo. E o engraçado é que ainda se acham espertos.

A principal linha de conduta divulgada por lá é que devemos mencionar, todos os dias, como um mantra tibetano, que o time do Avaí não tem qualidade. Que os jogadores contratados são uns cones, nós cegos enganadores. Isso é obedecido sem contestação até por marmanjos barbados ditos entendedores de futebol.

Ora, é mais claro que a luz solar que o time do Avaí não tem rendido. Os jogadores estão muito aquém, aliás, de um time de futebol e os treinadores que passaram por aqui não têm conseguido fazer o grupo jogar adequadamente. Estamos na metade do ano de uma temporada conturbada e ainda não se consegue repetir uma escalação. E alguns jogadores, tidos como estrelas e detentores da placa de salvadores, vieram conhecer as obras da ponte Hercílio Luz, os ajustes na curva da morte na SC-401, a inauguração de mais uma casa de espetáculos no norte da ilha e a abertura de mais um restaurante japonês. E agora estão correndo bater fotos da neve no Cambirela. Mas futebol, que é a sua função, nada.

Ocorre que muitos destes jogadores, que não jogaram ainda este ano por aqui, uns sabemos que já são rodados e outros tiveram desempenho ao menos razoável nos seus ex-clubes. Se não viesse o Zezinho viria o Pedrinho. Qual a razão de não estarem produzindo coisa alguma no Avaí? Essa é a questão a ser levantada. Honestamente, não se tem uma resposta fechada e concreta. Claro que para muitos buscar nas fofocas e nos mistérios carianistas é mais confortável.

Não cola mais a teimosa diarréia verbal de se dizer que o gerente de futebol Rondinelli não sabe contratar. Ele contrata aquilo que tem no mercado. Muito menos a conversa fiada de que salários não foram pagados. Isso são bengalinhas existenciais e o marido da vaca deitado na cama agradece por essa insistência oral. Mas não é nada disso.

Muito menos, a cada rodada, se pedir zagueiros, atacantes, goleiros, gandulas e quero-queros para os lugares de quem (não) vem jogando, ou que não jogou na rodada passada. A coisa é tão idiota que a cada jogo se pede para mudar o time todo, ou 90% dele, pois não rendeu. E como coerência e bunda cada qual tem a sua, reclamam de dívidas e querem fazer mais dívidas.

Só para se ter uma ideia, Marcio Diogo era unanimidade, chamado até de Messi Diogo e bastou jogar duas partidas ruins para se pedir seu cabeça numa bandeja. Até semana passada a solução para a lateral direita tinha sido achada, que era o tal de Alex Reinaldo e agora já conta como candidato a pereba do ano. Roberson teria vaga garantida para o lugar de Reis e já há uma manifestação do Movimento Passe de Macumba programada em frente ao Palácio do governador para a sua saída. Leandro Silva era incontestável mesmo errando uma barbaridade e só porque disse que o presidente é legalzinho, já existe um boneco de Judas com sua foto para ser queimado na próxima Páscoa.

Muita gente, conduzida pela tal rádio, quer qualidade para a séria B, esquecendo que nesta competição o que importa é jogar, e jogar duro, com sangue nos olhos e bunda na grama. Não adianta comprar canhão pra matar mosquito. Não vai resolver e a lição está aí para ser aprendida com direito a prova final de muitos times que estão no topo da tabela. Qual dos jogadores da Chapecoense a torcida avaiana quer, de fazer passeata, que jogue na Ressacada? E se algum for contratado de lá será considerado mais um erro do Zunino. Não aposta que tu perdes!

Só há duas saídas para o Avaí começar a deslanchar nessa fase que começa a ficar difícil: a primeira é os jogadores começarem a jogar e a segunda é a torcida exigir, no estádio, com as arquibancadas cheias, que estes mesmos jogadores joguem. Obviedade galáctica, tu não achas? Botei culpa na torcida de novo? Para os imbecis, sim.

Lá dentro da Ressacada é que é o lugar para se começar uma virada, não do lado de fora batendo lata ou dizendo tolices em blogs por aí. E sem se esquecer de desligar o rádio porque, o que se percebe, é que é mais fácil emprenhar pelos ouvidos que torcer pelo time que dizem ser seu até morrer.

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