A atmosfera do ódio

A campanha do Avaí na Série B não requer palavras doces e nem carinhos na moleira. É o momento de endurecer o discurso e de se exigir mais responsabilidade dos envolvidos. De todos, diga-se. Se os dirigentes avaianos estão deixando a corda frouxa, por incapacidade de administrar conflitos, se a comissão técnica não se decide sobre qual estratégia adotar para sair dessa maré e se os jogadores estão a milhas de distância de ser um time, também se deve cobrar uma iniciativa dos torcedores. E se falo, como sempre fiz, de torcedores é porque sou torcedor. Se a murrinha incrustada não quer ouvir falar disso, que vá para onde bem quiser. E se ninguém ainda entendeu, um clube existe por causa de seus torcedores, ou seja, é a parte mais importante. Faça-se valer, portanto.

Pois a hora é de abraçar o clube e não de abandono. Esse troço de rasgar carteirinha a toda hora é coisa de menino mimado. O sujeito tem que dar a cara a tapa e dizer: “eu quero que me respeitem” e aparecer, dizer que existe, ao invés de virar as costas e só voltar quando está tudo bom. Este não será respeitado.

É claro que em todo time de futebol é a mesma coisa. Fase ruim, as vitórias que não vêm, a posição na tabela despenca e as cobranças mais radicais, as manifestações mais incisivas aparecem. Torcidas organizadas marcam protestos, torcedores mais exaltados apelam para insultos e ofensas e até convocação de público zero passa a existir. São as lufadas da atmosfera do ódio, tão comum em nossa cultura.

Na propagação do olho por olho, o dente por dente exala seu hálito mais fétido. “Não faz como eu quero, eu devolvo com caras feias”. Mas dizem que muito olho por olho deixará o mundo cego e dente por dente tornará as bocas banguelas.

Obviamente que é difícil estimular alguém a ver um espetáculo ruim. Levados pela crítica sonsa, imagine convidar pessoas a ir ao cinema para assistir a um filme cujos atores não querem atuar, ou que sejam um bando de canastrões. Ou a uma peça de teatro, onde no palco todos estão de braços cruzados, mãos na cintura e texto esquecido. Ninguém vai. A obra será um redundante fracasso.

Ocorre que no futebol é muito diferente.

Ao contrário dessa lógica tola que inventaram, de consumismo barato e senso comum, a de comparar futebol com teatro ou cinema, o futebol nada tem a ver com isso. Nem mesmo sendo tratado como mercadoria, como produto a ser trocado pela mensalidade ou ingresso investidos. No futebol outras necessidades afluem. O time de futebol de um torcedor praticamente faz parte de sua família, e ninguém equilibrado o suficiente abandona a sua família quando o pau ronca.

Na mente do torcedor, no futebol o espetáculo ruim pode virar bom e sua torcida é para que o bom não caia na desgraça. Por isso o futebol, das atividades humanas envolvidas com grandes espetáculos, é dinâmico e controverso. Está em voga a paixão, a emoção, antes da razão. Assim, o controle das exigências é mais difícil, quando a fase é ruim.

Por outro lado, eu não concebo protestos de torcidas organizadas. Eu tenho anos de vida política e ninguém vai me convencer que protesto deste tipo é coisa pacífica. É só verificar as manifestações políticas que ocorreram no país, no último mês, para saber do que estou falando. Quem apóia isso, não tem o meu respeito. A velha lógica do “quando EU me manifesto, tudo deve ser permitido” é execrável. O direito comum não é de um grupo apenas.

E de torcida organizada, então, cuja inclinação fascista senta em barris de pólvora, bastando que um desmiolado acenda o pavio, as conseqüências são incertas, mas todas elas nas cercanias da violência. Quem gosta de resolver as coisas na porrada precisa é de ajuda psicológica.

Lugar de torcedor, portanto, é no estádio. É lá dentro que o sujeito deve protestar e exigir de seus jogadores. De forma ordeira e responsável, mas dura e implacável.

Na hora mais difícil, no momento mais desgraçadamente perverso é que o torcedor deve aparecer. É aí que ele deve demonstrar o seu propalado amor até morrer.

Do contrário, tudo o que se diz nos momentos de glórias, sorrisos e tapinhas nas costas serão uma grande mentira. Você só veste a camisa do seu clube quando ele ganha?

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