O show do poderoso

O que é mais improvável que um pai de família, 52 anos, estudioso das letras, das artes e da ciência, ouvir um funk carioca? Ora, ver um time do Avaí, de qualquer época, golear avassaladoramente e jogando sem erros, objetivo, dando show e olé, com direito a gols antológicos. E principalmente contra nossos maiores rivais, na casa deles. Isso é improvável.

Quem é avaiano, quem sentou na arquibancada fria do Adolfo Konder, ou mesmo dos tempos amadorísticos da Ressacada, sabe que isso é raro. Que se contam nos dedos as vezes que jogamos assim, durante nossa história e em qualquer campeonato. O avaiano foi criado na adversidade. E quando isso acontece é porque alguém sentado no banco de reservas se rendeu à humildade.

A gente imagina um time do Avaí ganhando aos 47 do 2º. tempo, com um chute de rebote, a bola resvalando nas mãos do goleiro, batendo na trave e correndo na linha o suficiente para o árbitro apitar o meio de campo e nos dar o gol. Isso é a representação máxima de nossas dificuldades.

E por isso a minha crítica ao seu Hémerson Maria, o Zé Maria. Seu discurso com losangos, quadrados e figuras euclidianas não condiz, sinceramente, com o jogo raçudo e ordinário de um Avaí Futebol Clube. Aquele em que um jogador ganha as divididas, rala bunda na grama e sai com as canelas em feridas.

Ocorre que, no ano de 2013, o Avaí tem nas mãos quatro homens de meio campo extremamente habilidosos. E aí, movidos por uma ambição tola, os técnicos até aqui não souberam fazer estes jogadores jogar. Até aqui! Pedíamos, insistentemente, que ele fizesse o simples. Que fizesse estes jogadores jogar sem inventar nada mirabolante, aproveitando as suas capacidades.

O simples era pôr Eduardo Costa como líbero no meio da zaga e deixar que Cléber Santana, Marquinhos e Diego Jardel fizessem o que sabem fazer: criar. Só isso. E para dar consistência na marcação, meter um sujeito raçudo e com alma avaiana cobrindo laterais e mordendo no meio. Jogo duro, pesado e pegado, com criação de jogadas. O simples. A humildade fazendo o comum virar espetáculo, uma poderosa aula de futebol. Sem invencionices, cacarejos e arrogância. Porque o futebol é assim.

O resto é aquela multipolaridade que vai transformar um time de mercenários em time de guerreiros. Mas isso é outra conversa.

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