Uma falsa importância

Na história do futebol mundial não conheço torcida que tenha existido antes de um time. Se alguém conhece pode parar de ler o texto aqui.

O fluxo normal deste caudaloso rio é um grupo de desocupados fazerem uma vaquinha, juntarem uma cambada de perebas, dois ou três que sabem fazer embaixadinhas, comprarem uniformes e organizarem um time de futebol pra bater uma bolinha no campinho do bairro depois do expediente. Ou num Sábado à tarde contra os amigos da outra rua. Dali por diante, se a manguaça não consumir os músculo destes boleiros, ao longo dos anos teremos mais um clube na praça. E, junto deles, uma torcida.

Ela começa, primeiramente, com a parentada dos candidatos à Bola Murcha. Tem o tio que faz o churrasco, o cunhado que entende de massagens, o pai que gela a cerveja, a madrinha do neto que lava os uniformes, a avó que faz a maionese e os pais que dirigem as Kombis para levar a raça toda a bater uma bolinha no campinho do sitio.

Quando o troço fica sério, todos torcem desbragadamente pelo sucesso do time. O tio do churrasco quebra um galho de técnico, mas quando perde a vaga para um genro que chegou ontem e já dá uns tapas na sobrinha bonitinha, fica bicudo e vira o corneteiro da turma.

Com o passar dos anos esse time fica famoso no bairro, com duas gerações de atletas e alguns uniformes desbotados, vai agregando mais gente na turma dos acompanhantes, quando o time sai pra jogar fora. Já tem a vizinhança e até gente do outro lado da cidade a acompanhar a saga do time. O bisavô com Alzheimer, que era o tio que cuidava do churrasco no passado, guarda a primeira camisa de goleiro numa gaveta atolada de naftalina e a expõe dentro de uma caixa de celofane toda vez que há um jogo importante. É o que mais chora quando o time ganha e o que se enfuncha quando perde. É também o que dá uns caraminguás, tirados de sua pensão de funcionário público, pra turma beber umas cervejas. Mas não lembra mais quantos títulos perderam na existência do time.

Um dia alguém ligado a um vereador cisma de registrar o time na liga da cidade. Com a ajuda do poder público compram uma área de um antigo ferro-velho e o transformam em estádio. Surge uma diretoria, elaboram um estatuto, que é escrito à mão, pois se guardarem em pendrive ele pode se perder, e fundam o clube. Os simpatizantes viram torcida e há até um esboço de organizada, cujo presidente é um ex-presidiário amigo do goleiro, que coordenava rebeliões no cadeião com um megafone.

E assim nasce mais um clube a matar de emoção, ódio e amor uma legião de simpatizantes e acompanhantes e que passam a se chamar torcedores.

Lembre-se que o teu clube nasceu assim, sem que houvesse sequer uma bandeira agitada no lado de fora do campo por alguém a dizer que era mais importante que o próprio clube.

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