O pouco caso com os nossos

Dia após dia leio e ouço a seguinte frase: “dependemos só de Marquinhos Santos e Cléber Santana para conseguir o acesso”.

Como assim? É pouco? É o “só isso”? Quer dizer que se alguém nos perguntar “com que time vocês vão jogar a Série B?” vale responder: “é, temos aí o Marquinhos e o Cléber”? Os outros são “o resto”?

A gente precisa de jogadores para dar um up? Sim, de jogadores, e não de listinhas de quem já passou pelo Barcelona. A frase que mais se ouve é: “o Rondinelli tem que acertar dessa vez”. Entenda-se esse acertar a contratação de jogador com pedigree. Que ninguém me venha contestar.

Tenho dito, insistentemente, que esse esnobismo é o que atrapalha. Por mais que a gente respeite opiniões, estas declarações de grife são um prato cheio para amofinar um grupo de jogadores. E para apontar se torcemos para um time de futebol ou para estrelas de espetáculo de Hollywood.

Eu não torço para nomes. Sempre que vou aos jogos observo o jogo, as táticas, as jogadas. Esse negócio de nome, sobrenome, CPF e conta bancária, se na vida do cotidiano já é uma palhaçada, no futebol é balela. Nunca foi predicado para garantir bons times e campanhas asseguradas de sucesso um elenco de jogadores top de linha. Satisfaz muito mais o ego de alguns desesperados do que afiançar bons resultados. Eu sempre digo que time bom é aquele que ganha e time ruim é o que perde. Não existe lógica mais certa.

Mas a gente sabe de onde vem estas posturas megalomaníacas. Basta ficar na fila da Ressacada esperando e perceber o que as pessoas, dentro de seus carros, ouvem nos seus rádios ligados. Quer ver, então, quando um gol é repetido. Uma porção de bocós apitando e ligando os pisca-alertas para cbns, guarujás, records e outros que na fase ruim enfiam mais ainda o dedo na ferida. Sim, porque na boa todo mundo quer aparecer, são todos amiguinhos.

Durante muito tempo o clube doladelá montou times com jogadores importantes. Fez bonito nos campeonatos e marcou um nome no cenário do futebol nacional. Mas por que? Porque tinha dinheiro e outras “facilidades (para não dizer um nome mais feio)”. Quando o glamour e o dindin acabaram ficaram as cores e um nome, mas a importância foi-se como areia escoando pela praia. Não serviu pra nada toda aquela pompa e arrogância que expunham. Nem pra criar história. Tiraram a fantasia e sobrou uma armação de madeira podre e mole. Nomes? Pedrigree? Fama? Fortuna? Tudo tolices inventadas pela mídia que eles acreditaram que eram reais e compraram. Mas não foi apenas por lá que a crença grifeira se firmou e se estabeleceu. Os torcedores do leãozinho daqui sempre olhavam a grama do vizinho mais verdinha. Execravam por puro despeito os doladelá, essa é a verdade, mas olhavam com olhos de cobiça.

Temos uma mídia esportiva, por exemplo, que traz em seu cerne a inclinação para eles no futebol na Capital. Por mais que apostem na imparcialidade, sabe-se que há uma tendência escrachada. A rebolada natural que se observa a cada rodada entre os dois times de Florianópolis é evidente. Ocorre que agindo como bois no pasto conduzidos ao abate, os frequentadores das arquibancadas do Sul da Ilha atuam com o mesmo sentimento daquilo que sai das redações, das rádios e de seus programas esportivos.

Anseiam por nomes famosos e grifes exitosas. Vão ao estádio já interessados em quem vai ser contratado e não na escalação ou no tipo de formação tática do grupo atual. Coisificam nossos atletas, como se fossem nada, um resto qualquer que sobrou de outros clubes. E nem adianta aparecer com alguma contratação, mas de um nome desconhecido. Nem se espera jogar e já recebe um atestado de ruindade. “É uma aposta”, dizem, como se conhecessem todos os jogadores do mundo.

Para ser aceito tem que ser alguém com passagem pela Champions League, no mínimo, mesmo que tenha ficado no banco uma temporada. Se o time não tiver um jogador famoso a fazer das suas em campo, se os onzes não tiverem passado por algum bambambã do futebol, se não estampou as páginas dos jornais de Rio ou São Paulo, se não trás na bagagem uma faixa ou em seu currículo não tenha um título nacional, nem precisa vestir a camisa avaiana. Ou, se vestir, vai ter que comer a grama que o Adenir plantou com carinho, sem sequer imaginar errar alguma jogada. Deosolivreô… Tadinho dele. Exatamente igual ao que fazem as redações.

Talvez seja por isso que se insista tanto em contratações de peso e não se dê valor ao que nossos jogadores, com todas as dificuldades, estejam desempenhando em campo. Há senões, evidentemente, mas ruins ou não, são estes que nós temos e que devemos cobrar responsabilidades. São eles que podem levar o Avaí à Série A. Xinguem quando erram, mas aplaudam quando acertam. Não são mercenários, como já foram chamados. Nem serão guerreiros, como se dirá quando conseguirem o acesso. São apenas jogadores, exercendo a sua profissão e defendendo as cores do Avaí. Merecem mais respeito.

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