Medo do escuro

Sabe aquela situação onde o sujeito foi convocado pra guerra, pegou seu fuzil de um tiro e, diante do inimigo poderoso ele se borra nas calças, depõe a arma e diz: lutar pra quê, se já vou tomar um tiro e morrer?

medo

Pois é, corre por aí, pela internet uma manifestação de derrota antes da batalha. Gente com medinho de enfrentar as dificuldades da vida se manifesta para que o Avaí pare agora de jogar, entregue “as armas” e não dispute o acesso:

– Vai que sobe. Vai que consiga o acesso. Vai que chegue à série A. e, com toda a certeza, no ano seguinte, volte a cair. Não quero passar por vexame.

Pois é, este é o tipo de gente que circula por aí. Gente covarde e medrosa, que se borra ao som de um simples relâmpago ou do escuro da noite. Gente que diz torcer por um time de futebol, mas sequer sabe que neste esporte a competição é importante. Que a disputa entre grandes e pequenos, entre medianos e superstars, entre todos os concorrentes é o que faz ser o que é: um poço arrebatador de paixões.

Quantas vezes fui à Ressacada e me diverti com o espetáculo. Quantas vezes adorei jogarmos contra galinhas mortas e aplicarmos goleadas catastróficas. E quantas vezes chorei e sofri e exultei o time pelo qual eu torço por havermos derrotado gigantes do nosso futebol.

A propósito, o futebol é o único esporte que proporciona isso, que os grandes sejam derrotados por pequenos. No futebol não há lógica, não há caminhos prontos, não há resultados definidos. É um jogo de contingências, onde o acaso, na maioria das vezes, define placares, mesmo que de um lado haja uma superpotência e do outro apenas um mero participante das Ilhas do Taiti.

O futebol é envolvente e gratificante exatamente por isso, para que haja contrariedades e indefinições.

E daí se no ano seguinte cairmos? E daí que tomemos goleadas? Ao menos vamos participar e não enfiar o rabo peludo no meio das pernas com medo do desconhecido. A história do Avaí, por acaso, é a história de conquistas e de reviravoltas. Não é a de perdedores e fracassados. Quem conhece o Avaí sabe disso.

Não foi por acaso, portanto, que alguns desses derrotistas, em passado recente, estes mesmos que requerem uma desistência antes do sofrimento, convocaram a torcida para assistir a um show de sertanejo, ao invés de ir para a Ressacada torcer pelo seu time. É gente que pensa pequeno, do tamanho de seus cérebros.

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Na raça

Se há um troço o qual a nação avaiana exulta é a histórica raça demonstrada pelos times que representam este clube. E isso está no hino, ou seja, incorporado à nossa história. Pois não foi de outro jeito que ganhamos do JEC. No sangue, no suor e na lágrima. Na pura raça avaiana.

Durante a tarde se ouvia dizer que o jogo poderia ser cancelado. Chovia baldes na já veneziana cidade das flores. E com chuva o espetáculo do segundo clássico de Santa Catarina seria prejudicado. Havendo jogo, seria na lama. E como de fato foi. Alguns lampejos de criatividade aqui e ali, uma ou outra jogada mais brilhante, mas de resto foram chutões esteporentos e bicancas levianas.

O Avaí, contudo, estava em campo com a corda no ultimo laço. Embora alguns poucos avaianos, como eu, não houvéssemos desistido, sabíamos que era muito difícil. Mas sabíamos também que com o Avaí não se brinca. Sabemos, pela nossa história, que o Avaí se supera quando ninguém dá mais nada por ele. Alguns pensam que isso é figura de retórica, que são frases bonitinhas para compor texto melodramático de torcedor babão. Não, não é.

E foi assim mesmo, na superação, na raça, na bunda ralada na grama que vencemos. O gol de Beto, execrado por que acha que conhece futebol e ofendido por quem se acha superior, foi o exemplo claro disso tudo. E mesmo que a postura tática adotada pelo Maria tenha-nos favorecido, ainda assim impusemos um futebol de quem quer vencer, de alguém que quer algo na vida, além de ser mero coadjuvante.

Estamos no campeonato, acesos, jogando no limite das forças, sofridos e agoniados, do jeito que todos nós, avaianos, gostamos.

Duas derrotas em casa !

Com as derrotas para Inter e Fluminense, o Tigre voltou a estaca zero.  Foram duas engraçadinhas contra o Vitória e São Paulo longe de Criciúma que nos deram uma esperança de que a série B não estivesse em nosso contexto neste ano. Estive no Heriberto Hülse nestes dois jogos em casa. Contra o Inter, o meio de campo todo arrebentado, conseguiu suportar até o primeiro tempo; já no segundo tempo…          foi uma avalanche do time colorado e logo com um gol no início.    Já contra o Fluminense, com o time mais completo, foi um banho de bola no primeiro tempo, com perda de pênalti, gol mal impedido e fazendo um a zero no placar. Já no segundo tempo…  uma avalanche do tricolor carioca somado a mal mexida do Sílvio em colocar o Gava no lugar do Fabinho em vez do Daniel Carvalho. Desarrumou todo o time !   Duas derrotas em casa seguidas !  Pelo que percebemos, o Tigre deveria solicitar à FIFA  para que uma partida de futebol tenha apenas 45 minutos !!!!!!!  Enfim, voltou tudo como antes. A gordura adquirida fora de casa esvaiu-se e agora a conta é simples: há mais 48 pontos em disputa. O Tigre precisa fazer 21 para se garantir. Então vamos lá: são mais 16 jogos, precisando vencer 7 ! Terá que conseguir pontos fora de casa , se não………

Quem sabe faz a própria história

Já ficou na história o jogo entre Avaí e Palmeiras, válido pela 23ª. rodada da Série B, de 2013. Lamentamos e exaltamos o que foi possível. E ficamos sabendo, para nossa surpresa, que o Avaí tem um time que é muito mais capaz do que se imaginava. E que pode muito. Não me lembro, neste ano, de termos feito uma partida tão intensa como aquela. Mas isso é passado.

O Avaí agora segue jogando, a cada rodada, por um jogo. O próximo jogo, daqui por diante, será final de Copa do Mundo. Portanto, o próximo da vez é o jogo contra o JEC de Joinville. E se o jogo de terça-feira já ficou para a história, a história nos conta que os jogos entre Avaí e Joinville são encardidos. Talvez, depois do clássico em nosso quintal, seja o jogo com maior rivalidade por aqui. Não me lembro de ter havido jogos amistosos entre Avaí e Joinville.

Aliás, quando nos encontramos, os avaianos, para provar a última safra de cevada, frequentemente temos histórias para contar sobre os jogos do Avaí. Se há um clube onde seu passado é rico é o nosso. Encontre-se com um avaiano e o papo começa com “lembra daquele jogo tal…” e sai uma enfiada de tons, detalhes e imagens inacreditáveis. Uma pessoa que não conheça as nossas histórias pensa que estamos falado de alguma civilização famosa ou um drama épico grego.

Dos jogos contra o JEC temos um enredo rico. As partidas entre os times destes dois clubes são verdadeiras epopéias mesmo. Cada lance melhor que o outro, cada disputa uma decisão. O clube mais vezes campeão e de maior prestigio em Santa Catarina contra o da torcida mais participava da maior cidade do Estado, cada qual buscando solidificar uma hegemonia e intensificar a rivalidade.

Lembro de dois jogos importantes, um foi a decisão do estadual de 1985, em Itajaí, quando o JEC engoliu o Avaí e foi campeão, e outro pelas finais de 1988, na Ressacada, quando Adilson Heleno quebrou a barreira do som numa cobrança de falta magistral. Sou testemunha dos dois jogos.

Daqui para frente será assim, um jogo, uma final, cada ponto somado um passo para estarmos na Série A de 2014. E que começa pelo JEC.

Um Avaí imponente

O que fez a diferença entre o Palmeiras e o Avaí em campo? Postura e vontade de vencer. Só isso.

Foram com estes predicados que o time do Palmeiras venceu o Avaí nesta terça-feira, pela Série B. Sentiu a dificuldade e teve vontade de ganhar o jogo.

Muita gente fala em qualidade, em necessidade de jogador, em investimentos e blábláblá. Eu vejo condição psicológica, imposição, garra, determinação, gana. Ora, um time de futebol existe para jogar bola e fazer gols, o que, obviamente, o leva a vencer partidas. Essa é a regra básica e fundamental deste esporte desde que foi inventado. O time do Palmeiras tem isso. O do Avaí demonstrou que tem, mas que está incubado.

Gostei muito da partida desta terça-feira feita pelo time do Avaí. Ainda não tinha visto este time jogar assim. Não sabia que tínhamos isso. Porque o Avaí demonstrou que pode, que tem potencial, que se quiser, chega. Tem que querer (alô, Assis!).

Discordo frontalmente, portanto, desse canibalismo de nossa mídia esportiva e repercutido nas arquibancadas da Ressacada, da tese subjetiva de qualidade. De que o Palmeiras tenha vencido porque tem mais qualidade, que seus jogadores sejam estratosfericamente superiores aos nossos. Bobagem! E isso nem é postura arrogante, falta de humildade ou algo que o valha, mas é daquilo que se vê. Eles tinham Valdivia? Nós temos Marquinhos. Eles tinham Mendieta? Nós temos Cléber Santana. Mas eles tinham Leandro. E nós temos Marcio Diogo e Luciano. E em falhas individuais, não por jogadas trabalhadas, que seria natural a um time poderoso, eles nos venceram. Contando, ainda, com a ajudinha automática da arbitragem, sempre ela.

O Avaí jogou de igual pra igual, como um time grande, e em determinados momentos da partida foi bem superior a este poderosíssimo Palmeiras. Que poderosíssimo?

A constatação de que o Palmeiras sentiu o golpe foi a sua torcida, esperta e acostumada a grandes jogos, ter gritado olé nos finais da partida. Só se grita olé quando se joga contra um rival e damos banho de bola, contra um time cascudo e no mesmo patamar do nosso e dando o famoso nó tático, ou quando um Avaí goleia um desses chamados fortes. O contrário não existe e aquele grito de olé me encheu de orgulho, porque eles sentiram que estávamos bem melhores e escaparam de uma traulitada didática. Eles perceberam que podiam e conseguiram. Nós temos potencial para poder e poucas vezes queremos. Até seus jogadores, ao final da partida, se ajoelharam e ergueram suas mãos para cima, porque perceberam que o jogo foi duríssimo para eles. Porque conseguiram na força de sua vontade, contando com falhas nossas, e não pela imponência de seu nome.

O fato é que, na análise fria, perdemos uma boa chance de estar no G4 não por esta partida, mas por todas as outras que jogamos nos considerando pequenos. Quando o Palmeiras vem jogar com o Avaí ele já conta com os três pontos. Quando vamos jogar contra Guaratinguetá, Oeste ou Quitandinhas Futebol Clube nos preocupamos com “sistema defensivo”, com a “consistência de nossa marcação”, com o “lateral deles que é muito bom”, ou em “estudar o adversário” e em losangos e quadrados. Em ir lá e atropelar a gente não quer. Nos apequenamos demais. Não temos dificuldades, nós as trazemos para o nosso colo. Essa é a verdade.

Com toda a certeza, jogando como jogamos nesta terça-feira e estando no G4 não haveria preocupação com salários atrasados, com falta de qualidade e muito menos em se precisar de jogador. O mesmo time que está aí serviria. Mas como o SE não joga, temos que correr atrás e buscar esta vontade de vencer.

Ela existe, todos os que foram ao estádio viram. Basta que ela entre em campo nos próximos jogos e que deixemos de lado este complexo de inferioridade.

O pouco caso com os nossos

Dia após dia leio e ouço a seguinte frase: “dependemos só de Marquinhos Santos e Cléber Santana para conseguir o acesso”.

Como assim? É pouco? É o “só isso”? Quer dizer que se alguém nos perguntar “com que time vocês vão jogar a Série B?” vale responder: “é, temos aí o Marquinhos e o Cléber”? Os outros são “o resto”?

A gente precisa de jogadores para dar um up? Sim, de jogadores, e não de listinhas de quem já passou pelo Barcelona. A frase que mais se ouve é: “o Rondinelli tem que acertar dessa vez”. Entenda-se esse acertar a contratação de jogador com pedigree. Que ninguém me venha contestar.

Tenho dito, insistentemente, que esse esnobismo é o que atrapalha. Por mais que a gente respeite opiniões, estas declarações de grife são um prato cheio para amofinar um grupo de jogadores. E para apontar se torcemos para um time de futebol ou para estrelas de espetáculo de Hollywood.

Eu não torço para nomes. Sempre que vou aos jogos observo o jogo, as táticas, as jogadas. Esse negócio de nome, sobrenome, CPF e conta bancária, se na vida do cotidiano já é uma palhaçada, no futebol é balela. Nunca foi predicado para garantir bons times e campanhas asseguradas de sucesso um elenco de jogadores top de linha. Satisfaz muito mais o ego de alguns desesperados do que afiançar bons resultados. Eu sempre digo que time bom é aquele que ganha e time ruim é o que perde. Não existe lógica mais certa.

Mas a gente sabe de onde vem estas posturas megalomaníacas. Basta ficar na fila da Ressacada esperando e perceber o que as pessoas, dentro de seus carros, ouvem nos seus rádios ligados. Quer ver, então, quando um gol é repetido. Uma porção de bocós apitando e ligando os pisca-alertas para cbns, guarujás, records e outros que na fase ruim enfiam mais ainda o dedo na ferida. Sim, porque na boa todo mundo quer aparecer, são todos amiguinhos.

Durante muito tempo o clube doladelá montou times com jogadores importantes. Fez bonito nos campeonatos e marcou um nome no cenário do futebol nacional. Mas por que? Porque tinha dinheiro e outras “facilidades (para não dizer um nome mais feio)”. Quando o glamour e o dindin acabaram ficaram as cores e um nome, mas a importância foi-se como areia escoando pela praia. Não serviu pra nada toda aquela pompa e arrogância que expunham. Nem pra criar história. Tiraram a fantasia e sobrou uma armação de madeira podre e mole. Nomes? Pedrigree? Fama? Fortuna? Tudo tolices inventadas pela mídia que eles acreditaram que eram reais e compraram. Mas não foi apenas por lá que a crença grifeira se firmou e se estabeleceu. Os torcedores do leãozinho daqui sempre olhavam a grama do vizinho mais verdinha. Execravam por puro despeito os doladelá, essa é a verdade, mas olhavam com olhos de cobiça.

Temos uma mídia esportiva, por exemplo, que traz em seu cerne a inclinação para eles no futebol na Capital. Por mais que apostem na imparcialidade, sabe-se que há uma tendência escrachada. A rebolada natural que se observa a cada rodada entre os dois times de Florianópolis é evidente. Ocorre que agindo como bois no pasto conduzidos ao abate, os frequentadores das arquibancadas do Sul da Ilha atuam com o mesmo sentimento daquilo que sai das redações, das rádios e de seus programas esportivos.

Anseiam por nomes famosos e grifes exitosas. Vão ao estádio já interessados em quem vai ser contratado e não na escalação ou no tipo de formação tática do grupo atual. Coisificam nossos atletas, como se fossem nada, um resto qualquer que sobrou de outros clubes. E nem adianta aparecer com alguma contratação, mas de um nome desconhecido. Nem se espera jogar e já recebe um atestado de ruindade. “É uma aposta”, dizem, como se conhecessem todos os jogadores do mundo.

Para ser aceito tem que ser alguém com passagem pela Champions League, no mínimo, mesmo que tenha ficado no banco uma temporada. Se o time não tiver um jogador famoso a fazer das suas em campo, se os onzes não tiverem passado por algum bambambã do futebol, se não estampou as páginas dos jornais de Rio ou São Paulo, se não trás na bagagem uma faixa ou em seu currículo não tenha um título nacional, nem precisa vestir a camisa avaiana. Ou, se vestir, vai ter que comer a grama que o Adenir plantou com carinho, sem sequer imaginar errar alguma jogada. Deosolivreô… Tadinho dele. Exatamente igual ao que fazem as redações.

Talvez seja por isso que se insista tanto em contratações de peso e não se dê valor ao que nossos jogadores, com todas as dificuldades, estejam desempenhando em campo. Há senões, evidentemente, mas ruins ou não, são estes que nós temos e que devemos cobrar responsabilidades. São eles que podem levar o Avaí à Série A. Xinguem quando erram, mas aplaudam quando acertam. Não são mercenários, como já foram chamados. Nem serão guerreiros, como se dirá quando conseguirem o acesso. São apenas jogadores, exercendo a sua profissão e defendendo as cores do Avaí. Merecem mais respeito.