O remorso como juiz

Com a doença do presidente Zunino percebe-se, nitidamente, que há em curso uma mudança de postura nos humores ao redor da Ressacada. E é tão forte que chega a ser assustadora. Não sei, sinceramente, se por reconhecimento das palavras duras ditas antes a ele ou se por desfaçatez mesmo. Ficaremos sem saber, mesmo os incautos.

Antes, quero dizer que não sou piegas e para politicamente correto devo muito, não sirvo.

Mas o fato é que, se antes o mandatário-mor do Avaí Futebol Clube era execrado até as últimas consequências, numa enfiada maníaca de palavrões, frases de efeito e impropérios os mais diversos, agora o discurso mudou avassaladoramente. Por qual razão? Respeito ao homem, dirão. E antes, tinha isso, essa preocupação com o respeito?

Houve insanos que, antes, em brincadeiras estúpidas e infantis, pediam que “aquela moto passasse por cima dele de novo”, algo que sendo infeliz e tolo, credito a um radicalismo atroz, abusado, que permeou durante muitos anos. Só que agora pedem desculpas públicas reconhecendo o vergonhoso ato cometido. E antes? Agora é porque está doente e com a doença não se brinca, é isso?

Como meu niilismo escorre diligentemente pelas veias, não consigo afirmar se é puro arrependimento o que se passa ou hipocrisia, porque atestar que o antes mafioso e ladrão das coisas do Avaí tenha se transformado num homem bom é demais pra mim. Agora, ao invés de chamá-lo de incompetente e arrogante, com discursos que iam para além da raiva e que permeavam o ódio, pede-se auxílio a santos e deuses de plantão para o restabelecimento de sua saúde. Mas quem odeia não deseja o mal?

Constatações fragmentadas e cheias de rancores vão sendo pedidas para serem esquecidas. Não se deve confundir o homem com o profissional, diz-se, neste momento, coisa que não foi aventada durante anos e que tentou derrubar ao centro da Terra a reputação antes do homem, do pai de família, do que a do profissional.

Agora imagine você aí que é pai, mãe, avô ou avó. Pense em qual seria a reação de um de seus entes queridos quando vissem suas fotos ou sua imagem sendo escorraçadas em público, esnobadas, vilipendiadas, sendo manifestadas com escárnios e desrespeito. Tudo porque você não contratou um jogador que se queria. Como se a vida das pessoas se resumissem a um gol perdido ou tomado. Como se o futebol fosse o sentido da vida. E tudo, pasmem, em nome da verdade. Qual verdade?

Imagine você ter que se explicar para um amigo, para um cônjuge, para um filho que você não é ladrão, que você não está tirando dinheiro do seu clube, ao qual você dedicou um tempo a mais antes do que dado aos próprios filhos. Ir a uma festa e observar olhares desviados ou rumores de canto de boca. Sorrisinhos afetados. Comentários de lado. Porque um fulano fez um passe errado. Porque temos carências no time. Porque há muita confidencialidade e “aí tem”. Tudo isso o presidente Zunino, durante seus anos à frente do Avaí, passou.

– Ah, mas ele é um homem público. Deveria conviver com isso?

Deveria mesmo? Quem de nós já teve que se explicar para familiares, para colegas de trabalho? Sabe aquela fugidinha conjugal? O imposto sonegado? O sinal vermelho de trânsito invadido? Situações que se suspeita e se joga no ar, sem medir as consequências? Quantos de nós já tivemos nosso nome aventado como sujo na praça e se incomoda quando comentam sobre isso? Todos somos mulheres e homens públicos. Temos que passar por isso? Pelos dedos em riste?

Durante muito tempo foram criadas facções no meio da torcida avaiana, uma das torcidas mais bonitas do Brasil. Muito malquerer e muita cara feia se expressou. Ficar do lado do presidente Zunino, por exemplo, virou sinônimo de cumplicidade, no mau sentido, como se estivessem sido mantidas hordas de gângsters, de pitbulls de um chefão mafioso.

Os puxa-sacos e chapas-brancas, como se diz, levavam algum por fora, eram pagos para defender o homem, bajuladores sem classe e sem moral, que só serviam para respaldar a existência do homem. Não tinham vida familiar, profissional, nem mesmo credibilidade para dar uma opinião.

Bobagem! Muita bobagem! Muito ódio sem necessidade.

Espero que isso tudo, toda esta situação sirva de lição a muita gente. Não estou aqui para dar lição de moral a ninguém, pelo contrário. Quem sou eu, um coitado que está aqui no seu canto a ruminar. Também sou humano e erro, erro muito.

Eu só chamo a uma reflexão. Que o próximo presidente do Avaí, seja ele quem for, mesmo com acertos ou erros, seja tratado como um ser humano com defeitos e virtudes e não como uma criatura, um objeto, um ser que faz mal porque respira,  sujeito aos humores de reles torcedores ou figuras mesquinhas.

Isso são coisas que comprovam, mais uma vez, que se não for controlada, a insensatez humana é cruel e terrível, que o tempo é o senhor da razão e que depois o remorso é o melhor juiz que existe para inconsequentes. Talvez, quem sabe, isto sirva de lição a muitos donos da verdade.

E se não servir, é bom saber também que a língua não tem osso e um dia ela se enrola.

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6 pensamentos sobre “O remorso como juiz

  1. Zunino ou “Dr. Zunino” como muitos falam é, na realidade, presidente do Clube mais querido e da maior torcida de Santa Catarina e, por futebol ser paixão, a razão fica em segundo plano. Os algozes do presidente são torcedores movidos pela emoção. Nesse enredo não há mocinho ou bandido, mas somente força – muitas vezes irracional – que só quer o bem do Avaí.

    • Ricardo, não estou falando de críticos da administração Zunino. Aliás, convivo e me dou bem com muitos deles. Têm boa cabeça e ótimas ideias. São pessoas inteligentes.
      Eu falo é de calúnias, difamação, de gente que usa de subterfúgios para tentar execrar o presidetne ou sua reputação. Eu falo é de mau-caratismo mesmo. Eu falo é de gente que tem ódio gratuito.

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