Mais forte, nem tão rápido e poderia ser melhor

Certa vez, na época da Copa do Mundo de 1958, o cronista Nelson Rodrigues perguntou a um colega de redação quem ganhava o jogo entre Brasil e Russia. O homem disse: “ganha a Russia, pois o brasileiro não tem caráter”. E logo depois, ele, o cronista carioca e torcedor do Fluminense, Nelson Rodrigues, cunhou a frase como complexo de vira-latas, que ficou para a posteridade. Ou seja, no famoso desdém dos brasileiros sobre o próprio Brasil, há os diversos desdéns, malquereres e deboches que temos de nós mesmos. Não nos gostamos. É porque somos bestas mesmo, vai.

Quando o presidente Zunino assumiu o Avaí, muita gente, com a derrota nas costas, e por ter seus atos sido postos em dúvida, passou a se opor a ele. Natural, claro, todo derrotado sempre se vira contra quem ganhou. Mas daí sobreveio um ódio visceral. Do ódio surgiu uma legião de antipáticos a tudo que o Zunino fazia, que mais tarde trouxe mais tempero nessa sopa azeda. Não ajudavam e atrapalhavam um bocado. Batiam latas, chamavam a mãe de santa e o filho de bastardo inglório. Se odiava o Zunino, mas isso rebatia na instituição Avaí Futebol Clube. Tanto que anos depois foi convocado até público zero e etc e etc. Um complexo de vira-latas com pedigree.

Falou-se mal, muito mal, de tudo desde então. Das instalações da Ressacada, dos camarotes, das cadeiras, dos vidros no lugar dos alambrados, das camisas, dos salgadinhos dos bares, dos cariocas, dos paulistas, do CT, dos jogadores da base e execraram-se jogadores profissionais, dirigentes, treinadores e tudo o que estivesse relacionado à gestão Zunino. Até dos quero-queros. E das dívidas, claro.

Curiosa essa história de se falar das dívidas. Como se houvesse no futebol um clube que fosse capaz de andar com as finanças no verde, sempre disposto a fazer mais investimentos, ganhar títulos e não dever nada pra ninguém. Claro que madames e rapazes com o cheirador de oxigênio sempre voltados para o Velho Mundo dirão que lá, nas terras de Shakespeare, Cervantes, Hitler e Mussolini tudo anda às mil maravilhas e em que se plantando sempre nasce um pézinho de euros. Engraçada mesmo essa síntese geopolítica sem se entrar na seara da Economia. Devemos fazer igual por aqui, acredita-se.

Pois não é com outro sentido europeizado que se monta, agora, passados doze anos, uma tendência programática altamente credenciada para gerir os destinos da Ressacada. Ótimo! Uma maravilha que surjam mentes abertas ao mundo, democráticas, viajantes de Praga, Paris, Londres e Nova Iorque a nos dizer que a fórmula é bem simples: basta fazer um bom plano de gestão que a coisa anda. Não é lindo isso?

Saiu até um manifesto, gramaticalmente perfeito e oniricamente produtivo, capaz de nos ensinar que a pólvora pode ser reinventada, sim, senhor. Ora, Deus não levou seis dias pra fazer o mundo e os sumérios outros dez pra fazer a roda? Por que não podemos fazer melhor? E em menos tempo. Em seis meses tiramos o Avaí da pindaíba deixada pelo Zunino, esse cara que só soube fazer dívidas, onde já se viu! Seremos mais fortes! Cadê o meu toddynho?

Mas aí surge uma perguntinha básica. Nada assim muito elaborado. Nem sou adepto das teses mirabolantes. Apenas uma dúvida:

Quem vai pôr a mãozinha magra no bolso quando o cobertor destapar os pés ou deixar as orelhas geladas? Como assim não precisa? Ah, sei, o plano de gestão copiado da NASA e que demorou séculos para ser incorporado ao estatuto é quem vai decidir isso? Sei.

Peraí, fiquei sabendo que o plano de gestão, que não serviu para o estatuto, dará condições para que empresários abnegados agora venham a nos brindar com seus badulaques, espelhinhos e rendas de seda. E não é ninguém de dentro do clube, ora, vejam só. Serão investidores que há por aí e que adoram o Avaí e não se incomodarão a nos dar uma doleta sequer, sem uma contrapartida, sem senões, sem caras feias. Poderemos até captar empresários da bola, que bacana, a nos fornecer jogadores sem um retorno, nadica de nada, só porque gostam do Avaí, este gigante adormecido. O Zunino, este incompetente, é que não soube fazer isso. É tão simples. Minha Nossa Senhora das Unhas Encravadas, descobrimos como fazer futebol.

Ah, sim, só não se pode esquecer depois de informar quem, de dentro da diretoria, será capaz de tirar dos seus filhos para fornecer ao Avaí, quando estes empresários que nos amam resolverem ir ali dar uma voltinha e já retornam. Há uma porção de ingênuos que ainda acredita em Papai Noel e pensa que o Coelhinho da Páscoa sofre maus-tratos em algum laboratório de pesquisa. A rapadura é doce e dá cáries.

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