A hipocrisia que nos consome

O futebol é um fenômeno sociológico muito curioso. Se um acadêmico das Ciências Humanas, da Antropologia ou mesmo um curioso letrado qualquer, se detiver a defender teorias, doutorado e pós-doc relacionados ao futebol, com intuito único e exclusivo de ganhar dinheiro, a revista Forbes vai achar outro milionário por aí. E eu não falo do futebol jogado no campo, este deixo para os vários analistas que nos enchem os tubos em mesas redondas, quadradas e bicudas infestando nossa mídia. Falo do entorno, de comportamento.

Qualquer pessoa nascida após 1.895, ano no qual foi implantado o futebol no país, sabe que ele não é apenas um esporte. Não se trata de um ajuntamento de rapazes para bater uma bolinha. Até aquela pelada de domingo à tarde entre casados e solteiros, na beira da praia, quando os jogadores já estão até o topete de cerveja, tem as suas mandingas, reverências e entojos, que são promovidos antes de se entrar no campo-areia.

Jogar futebol é expor uma personalidade. E na fauna humana isso é contrário ao espírito esportivo que o futebol tanto proclama. A história de fair play, por exemplo, é uma mentira institucionalizada. As pessoas, os jogadores, são obrigados a fazer o bem, contra a vontade, diga-se, enquanto os torcedores gritam palavrões ao jogador “humano” que põe uma bola pra fora na reversão de uma gentileza. Isso tudo foi decidido, tacitamente, numa espécie de contrato oculto lá fora.

– É sangue nos olhos! É guerra! Aqui é nóis, mano!

Há, também, a história de levar jogadores nos braços quando há vitórias ou conquistas, mas a derrota fará estes mesmos jogadores, numa rodada seguinte, ter que fugir da turba ensandecida que os querem jogados numa vala.

Dizemos que amamos o futebol. O sentimento e a emoção nos dirige. Mas por quem? Ou pelo que?

São os jogadores que amamos? Mas se na pior das derrotas os queremos num calabouço imundo para nunca mais saírem, temos este amor, mesmo, por jogadores? Mesmo os mais idolatrados? Perca um pênalti num clássico, o jogador que era olhado com olhos rútilos, e dali por diante será renegado.

É pela camisa? Mas que camisa? A dos tempos remotos ou as atuais que são peças de marketing ambulante? Quem sabe é a camisa dos sonhos de cada um, com a grife de fabricante mais espetacular e midiática?

Amamos um conceito, uma sensação que se reflete nos símbolos.

É a marca. A representação de uma paixão se resume em algo abstrato simbolizado por um nome, um logotipo, um desenho, uma cor. Entretanto, se altera com o tempo e ao sabor de desenhistas e marqueteiros ávidos por uma celebração.

Então é o escudo? O velho e indefectível distintivo, símbolo de lutas e glórias, um brasão a impor os respeitos devidos, que é beijado por um recém-chegado e que tenha feito um golaço. Curioso é que nem nós, torcedores fanáticos e fanatizados, o beijamos assim.

Então não é o escudo, é a história? Mas a história é feita por homens e eventos. E símbolos. Por nós, que ficamos do lado de fora. Por eles, que sujam os calções na grama. Pelas táticas e técnicas, sabidas e decididas em orgásticas discussões. Então amamos o quê da história? O todo? O pouco? As partes? Os momentos difíceis ou os de glórias?

Quem ama não mata, já dizia um velho. Mas há quem mate pelo futebol, que ele diz amar.

Adoramos o futebol? Sim, sem dúvida, mas é uma relação de amor e ódio implacável, pois a mesma mão que acaricia o todo do futebol é capaz de dar um tapa no pouco que incomoda, capaz de poder nos deixar com sequelas morais para o resto da vida.

O futebol, a bem da verdade, é um poço de hipocrisias.

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