O valor de um time

Os filósofos gregos antigos diziam que a vida que vivemos é gasta no adiamento das coisas e cada um de nós morre sem gastar o tempo suficiente que tem nas mãos. Em outras palavras, perdemos tempo com bobagens e picuinhas e acabamos não apreciando o viver essencial da vida, que é a construção de valores. O valor, aqui, não é a conotação financeira, a importância em dinheiro, mas o caráter, o mérito ou a estima que se tem por algo ou alguém, de modo relativo ou absoluto.

É o que torcedores de futebol têm para um time pelo qual dizem torcer. Justamente porque a emoção, acima da razão, não mede em moedinhas a dimensão de seu apreço pelo time ou pelas cores as quais o sujeito torce e aprendeu a conviver.

Meu mestre Darwin atestava que grandes mudanças são o resultado de pequenas mudanças acumuladas. Ou seja, nada ocorre de supetão, do dia pra noite e agrega um valor assim, no apagar ou acender de uma lâmpada. E é aí que se valoriza o nosso objeto, no passo a passo, aprendendo e (con) vivendo.

O time de futebol do Avaí da atual temporada, e que possui remanescentes da anterior, precisa se valorizar. Precisar ser objeto de desejo de sua torcida. Precisa ser bem quisto por uma nação carente de boas notícias. Precisa dar prazer em torcer para ele.

Contudo, eles querem esse valor em espécie.

Ora, no modo de produção capitalista, a venda da força de trabalho requer a contrapartida, que é a remuneração. Isso é a causa principal de há séculos capitalistas e socialistas viverem se estapeando. Todos os governos, desde as premissas de Marx e Engels, aliás um pouco antes, desde a Revolução Francesa até este exato momento, dividem-se nessa dicotomia, o quanto vale um trabalho executado. Em suma, é isso o que já moveu até guerras e mata um cidadão a cada minuto quando a Política e a Economia estão em voga.

Os jogadores do Avaí Futebol Clube requerem respeito capital pelo seu trabalho. Estão amuados e querem seus salários. Venderam um produto, que foi a força de seus músculos, e querem retorno. Essa é a suposta razão de tanta pipocagem nos jogos desde as priscas eras de 2013? Sim, e do ponto estritamente trabalhista estão corretos. Eles e os funcionários do clube que fazem esta máquina azul e branca funcionar têm o apoio de nós todos quanto a isso. O valor financeiro está devidamente mapeado e definido. Acabaríamos a discussão aqui e os panfleteiros de ocasião sairiam agora para a Ressacada com faixas dizendo que jogador unido jamais será vencido e blábláblá. Seria simples se fosse assim.

Mas, porque a maioria dos torcedores deste clube torce o nariz para isso? Num mundo normal, seríamos unânimes em segurar aquelas faixas sindicais, por certo.

A resposta é simples: porque o valor que dizem ter não é o mesmo que vemos exercer. Se acham que cada esticada de perna vale dez mil, dizemos que suas condutas frouxas não valem um centavo. Pelo simples motivo que a lógica do futebol inverte estes valores. O futebol vivido nas ilusões de uma torcida é muito mais que uma troca de cheques num banco.

Para a grande mudança, ou seja, para que este time seja verdadeiramente vitorioso e campeão e acolhido e levado nos braços por sua torcida, é necessário que as pequenas mudanças comecem a acontecer. Que os jogadores registrados no elenco assumam que são jogadores do Avaí, que joguem o último e mais importante jogo de suas vidas a cada partida, para que seus valores pessoais se tornem valores financeiros, coisa que tanto almejam com razão.

Se não, podemos trocar todos os jogadores por prostitutas. Vão levar nosso dinheiro de qualquer jeito, mas ao menos elas nos darão prazer.

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