Um sonho que não se sonha só

Todos nós, humanos, para atingirmos metas reais, vivemos de sonhos. Não falo dos sonhos quando nos deitamos, quando nosso cérebro enxuga as podreiras adquiridas durante uma jornada e organiza tudo bonitinho. É dos sonhos com os olhos abertos e a mente delirante que quero falar. Daquele momento no qual almejamos algo que parece distante, mas basta fazer aqui, arrumar  ali, pegar isso, jogar naquilo e temos uma meta, um objetivo alcançado. Sonhamos porque estamos vivos e queremos nos manter enfrentando os problemas e lutando contra os moinhos de ventos, como dizia Cervantes através de seu Dom Quixote. Ou o galope do sonho para enfrentar o desespero e a tristeza, do bom e velho, e já saudoso Suassuna.

O sonho dos avaianos, nesta noite de quarta-feira, era vencer o Palmeiras. Um sonho palpável até, sabendo-se das dificuldades do adversário e da performance do nosso time nas últimas partidas. Um sonho que, logo ali, na esquina, nos faria acordar numa quinta-feira cheios de orgulho, com uma possível classificação na Copa do Brasil e encaminhar uma arrancada na campanha da série B. Sonhamos com isso, sim, afinal, vínhamos tão bem.

Acontece que, ora, bolas, nós estamos carentes. Essa é a verdade. Os torcedores avaianos precisam de um afago, um mimo, algo que nos conforte nessa nada mole vida de frequentador de arquibancada. Os motivos deste sonho são perfeitamente justificáveis, não concordas leitor?

A realidade, todavia, nos é madrasta. Ela é dura, cruel e insensata. E as mensagens têm-nos chegado subliminarmente, mas teimamos em não interpretá-las. Sabemos, de antemão, que as coisas para o Avaí não funcionam facilmente. E foi assim que acordamos para os fatos. Para a incômoda vida real.

Há tempos que de quem precisamos já não nos servem mais. Durante vários meses o time do Avaí Futebol Clube ensaia algo parecido com o futebol, mas esbarra na má vontade de alguns atletas. Ou nos bastidores cheios de quinquilharias do passado. Ou ainda dos fantasmas de outrora. De quem dependemos somos meio que traídos. E o fio do destino nos faz ir e voltar sempre pelo mesmo caminho. Os avaianos vivem uma eterna busca do que já foi.

Há quem, covardemente, imagine que a melhor solução para nosso clube é abandonar tudo, desfazer-se do time, cair para a série C e começar do começo. Discordo frontalmente. Nosso clube é vencedor desde que surgiu e andar para trás não faz parte da nossa história. Aliás, só vamos valorizar uma conquista futura se lutarmos até sangrar por este espaço.

Já estivemos no topo, sabemos como isso é bom e só vamos desistir se nos tirarem a capacidade de sonhar. Sonharemos em conjunto e enquanto isso for possível, vamos continuar os nossos desafios, juntos, coletivamente, mesmo que dentro do grupo de jogadores haja quem pense apenas no seu umbigo.

Entre a força e a disposição

O jogo desta noite fria de sexta-feira, entre Avaí e Ponte Preta, pode não ter sido um primor de qualidade técnica, mas foi um bom jogo de futebol. Como havia dito aqui, foi um jogo difícil, pegado, encardido, mas bom de se assistir. Não houve aquela ensebação habitual dos famosos anti-jogos adversários, e nem mesmo o time do casa caiu no lugar-comum de, após o gol, se jogar na defesa e garantir o empate. Pelo contrário, até os minutos finais, foi um jogo franco, aberto, com várias chances de gol tidas pelo Avaí e alguns ameaços pela Ponte. Ao final, ainda que a Ponte tenha sido mais efetiva no primeiro tempo, o resultado premiou quem teve mais determinação e disposição em buscar a vitória.

As pessoas que torcem para o Avaí e estão indo para a Ressacada percebem, nitidamente, que o time do Avaí mudou. A condição física está sendo um fator substancial para definir seu padrão de jogo. Marca forte, compõem-se rapidamente na defesa e busca as jogadas de gol sem medo de tomar contra-ataques. Não vemos um Avaí dando show de bola, com jogadas mirabolantes e lances de cinema. Nada disso. É um futebol simples, como bem definiu Marquinhos em sua entrevista, mas com objetividade. O 4-4-2 presumido pelo técnico Geninho tem virado um falso 4-3-3, com Marquinhos fazendo as vezes de centroavante e Anderson Lopes e Paulo Sergio caindo pelas pontas, bem abertos. Com isso as saídas de bola do adversário, tanto pelas laterais, como pelo meio ficam prejudicadas. Mais bem treinado e isso vai se tornar um ponto forte deste time.

Os problemas do Avaí, agora, são, exatamente, a criação de jogadas e um atacante finalizador, o famoso matador que todo mundo deseja.

O matador, todos sabem, é algo raro no mercado atualmente. Sei, de fonte segura, que o Avaí tem buscado este jogador incansavelmente, mas esbarra na condição financeira e na falta deste tipo de jogador dando sopa por aí. Talvez Diego Viana seja este tão almejado jogador e só nos resta esperar para ver.

Na parte da criação se espera muito, mas muito mesmo de Cléber Santana e Marquinhos, o que não tem acontecido. Indiscutivelmente são jogadores apagados, fazendo jogadas comuns, se movimentando pouco e com uma marcação na saída de bola adversária completamente nula. No futebol moderno, onde movimentação e força física são imprescindíveis, estes dois jogadores seriam, hoje, terceira opção de banco de reservas em qualquer time que queira algo na vida.

Antes, tenho que dizer a alguns abobados que não tenho marcação pessoal com estes jogadores. Não os conheço pessoalmente, nunca corri atrás de seus autógrafos, não bati fotos com as criaturas, sequer sei a cor de suas cuecas que alguns andam cheirando alucinadamente. Se há moços e raparigas servindo de colchão, não é meu caso e pouco me importa isso. Minha análise é no campo de futebol. Do desempenho, da qualidade técnica que sei que eles têm, mas que andam devendo há muito tempo para uma melhoria na parte técnica do clube de futebol para o qual eu torço. Sei a diferença, coisa que falta a muito moleque de teclado.

Mas voltando à vaca refrigerada, só para se ter uma ideia, o jogador Diego Felipe jogou sua segunda partida no Avaí e já foi o melhor em campo em ambas, sem nenhuma dúvida. E fazendo o que? Aquilo que cabe a um volante: marcar, compor o meio e chegar ao ataque. O que Marquinhos e Cléber tem feito em relação a isso, para aquilo que eles foram contratados, que é a armação de jogadas? Parece que fazem um favor em jogar no Avaí. Se algumas pessoas quiserem adorar os caras como estatueta de prateleira, ótimo. Mas eu quero é futebol jogado.

Há que se fazer, também, uma menção ao jogador Carleto, o bom lateral esquerdo que se encaixou perfeitamente no esquema adotado pelo técnico Geninho. Já havia gostado de seu jogo na última terça-feira e neste contra a Ponte ele foi imprescindível, obviamente. Segurou a saída de bola do ótimo lateral direito Daniel Borges, da Ponte, cobriu as saídas de Eduardo Costa e sustentou a marcação junto com Bruno Maia. Além disso, suas subidas para o ataque foram muito boas. Precisa melhorar é nos cruzamentos. Porém, o gol que fez para a vitória do Avaí foi daquelas cobranças de falta de manual: um balaço, com a bola fazendo uma curva e indo morrer nas redes sem permitir qualquer ação do goleiro Roberto.

Agora é esperar o jogo da Copa do Brasil para sacramentar essa boa fase do Leão.